O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias
Este filme nacional de 2006 foi dirigido por Cao Hamburger, diretor paulistano com pouca bagagem no cinema e que na realidade só dirigiu um filme antes deste, que é a adaptação para a telona do programa de TV "Castelo Rá-tim-bum", programa que Cao foi um dos diretores-gerais e criadores, por volta do ano de 1994. Estamos diante de um diretor realmente muito competente, cuja equipe neste filme também não deixa a desejar, com fotografia de Adriano Goldman e trilha sonora de Beto Villares.
Vamos à história do filme: no ano de 1970 (período pesado da ditadura militar no Brasil), o garoto Mauro é deixado por seus pais na porta da casa de seu avô. Confuso com o abandono, o garoto questiona aos seus pais para onde vão, e recebe como resposta: "vamos tirar umas férias". Os pais do garoto estão sendo perseguidos pela polícia da ditadura, e por isso acabam tendo que forçar o exílio, com medo de serem capturados - fato infelizmente comum neste período lamentável da história do Brasil. O início do filme é um pouco enfadonho e o roteiro deixa bastante a desejar nos primeiros minutos (Cao criou o roteiro com mais três escritores e levou quatro anos para concluí-lo). Há alguns diálogos mais do que confusos entre judeus, que misturam sua língua de origem (Iídiche) com um português arranhado. É difícil acompanhar por muito tempo frases sendo ditas em outro idioma - sem legenda - sem entender nada. Existe também certa fragilidade nas falas infantis do menino Mauro e a sua amiga Hanna (uma grande atriz, inclusive). Filmes protagonizados por crianças tem tendência a terem diálogos um pouco mal elaborados, talvez por uma excessiva necessidade de representar a infantilidade no conteúdo das falas.
Com o tempo, a história fica melhor e inclusive divertida, principalmente por causa dos lances envolvendo o Mundial de 1970 e as brincadeiras das crianças, que pagam para espiarem moças trocando de roupa nos fundos do vestiário de uma loja, o que evoca um certo saudosismo enganoso de uma era em que esse tipo de comportamento não era reprimido como deveria. Mauro se diverte com a Copa do Mundo, mas sempre ansioso com a chegada dos pais, que prometeram estar de volta no período dos jogos. Além disso, o garoto sofre para acostumar-se com a cultura judia do bairro de São Paulo, o que rende algumas cenas engraçadas. Há duas tomadas no filme que me chamaram a atenção. Na primeira delas, vemos Mauro tomando sopa no apartamento do avô, ao mesmo tempo em que o seu vizinho judeu. Porém, os dois estão em apartamentos diferentes, mas a câmera encontra uma forma de nos mostrar as duas mesas, reforçando a simultaneidade da cena. Um momento bonito e simbólico. A outra tomada acontece em uma festa judia, em que as crianças dançam a música "Eu sou terrível", de Erasmo e Roberto Carlos. Os passos das crianças no chão são intercalados com o cavalgar das montarias da polícia da ditadura do lado de fora, que está realizando uma de suas batidas para caçar "subversivos". Outro grande momento do filme.
Em alguns momentos, percebe-se a superficialidade do roteiro, que poderia muito bem ter apresentado qual foi o "crime" cometido pelos pais do garoto, ou ainda aprofundado os diálogos do judeu com o jovem rebelde interpretado por Caio Blat, mas o diretor parece ter preferido encurtar o filme. A despeito disso, "O ano em que meus pais saíram de férias" é um excelente filme nacional. Há uma cena, perto do desfecho em que o garoto protagonista sai correndo de um bar onde está sendo exibida a final do Mundial, para informar ao judeu que o toma conta que o Brasil está vencendo o jogo. O judeu então responde com indiferença: "que bom...". Enquanto a maioria do país comemorava o tri-campeonato da seleção brasileira, diversas pessoas sofriam com a perda de seus familiares, a tortura, os sumiços, o exílio, enfim, todas as atrocidades que o governo militar cometeu. A dor era tão grande, que nada fazia sentido, nem mesmo uma vitória da seleção na Copa do Mundo.
*Este texto foi revisado e reescrito em 08 de novembro de 2018.

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