Anora
Assisti ao novo filme de Sean Baker quando nem imaginava que a obra ganharia o maior prêmio do Oscar ou que seria tão premiado assim: o filme levou pra casa as quatro estatuetas principais da premiação, algo que não é muito comum na história da maior celebração do cinema. Bom, pra dizer a verdade é claro que eu tinha grandes expectativas em relação ao filme, que havia vencido a Palma de Ouro no Festival de Cannes, o que não é pouca coisa, mas Palma de Ouro e Oscar são coisas que normalmente não se misturam, o que não acendeu muito o meu alerta. Apesar de tudo isso, quando o filme terminou lembro de comentar que havia algo especial na maneira como a obra foi realizada e que ali eu enxergava mais cinema do que em "Ainda Estou Aqui", por exemplo, que já sabíamos que era um dos seus concorrentes na disputa do Oscar. O resultado é que "Anora" venceu e hoje é raro encontrar um brasileiro que defenda o filme, tamanho o sentimento de revanchismo que nos foi tomado pela derrota de Fernanda Torres pela jovem e até então pouco conhecida Mikey Madison na disputa pelo prêmio de melhor atriz.
Além de lembrar que elogiei o filme, também preciso confessar que o rotulei como uma versão premium ou gourmet de "Se Beber não Case", a popular comédia besteirol que virou franquia e se tornou um filme de entretenimento recorrente na televisão brasileira. É claro que a comparação é uma brincadeira, porque "Anora" é um filme com muito mais camadas, mas a obra de Sean Baker também não deixa de ser uma comédia, que provoca boas risadas com a sua história muitas vezes absurda e pouco verossímil de um jovem milionário russo que se apaixona por uma dançarina/prostituta dos Estados Unidos. Depois dos jovens se casarem impulsivamente em uma noitada, os pais do milionário enviam alguns homens truculentos para procurar o jovem e forçá-lo a desfazer o casamento, contra a vontade de Anora (que além de nome do filme é também o nome da protagonista).
E o que uma comédia sobre um casamento em Las Vegas tem de tão especial que o faz um filme superior aos demais de sua safra e permita que leve pra casa o prêmio principal do Oscar, além do Festival de Cannes? Bom, a verdade é que Sean Baker tem um grande talento como contador de histórias e o que vemos em "Anora" é uma progressão de acontecimentos em um ritmo bastante alucinante, mas que em nenhum momento abre mão da poesia do cinema para descortinar o seu enredo para os espectadores. E a força da atuação de Mikey Madison é um dos fios mais importantes na construção da narrativa de uma jovem que se permite envolver em um relacionamento superficial, preenchido por noites vazias, movido a álcool e drogas, em busca de uma felicidade aparente, pautada em bens materiais e sem nenhum amor verdadeiro, ao contrário da narrativa previsível e confortável de "Uma Linda Mulher", seu congênere.
É natural que sejamos conduzidos pela ideia de que obras artísticas em geral, e no caso específico os filmes de cinema, estejam sempre comprometidos a falar sobre algo. "Ainda Estou Aqui" é um filme de grande valor, assim como o belo livro que o inspirou. É uma obra inesquecível e cuja importância está escrita para sempre na história do cinema brasileiro. "Anora" não tem o compromisso nem a intenção de falar sobre nenhum assunto urgente, nenhuma pauta relevante (embora o faça) e nem por isso deixa de ser um filme tão belo, com uma fotografia arrojada e um bonito uso de cores tão característico de seu diretor. A personagem de Mikey Madison foi interpretada com tanto cuidado e realismo que o filme não deixa de ser menos humano do que outro que falou sobre os horrores da ditadura. E cinema não é uma competição de pautas, mas o espaço do sublime, da mágica e da poesia. E nesses últimos aspectos "Anora" é um filme mais especial.


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