A Origem
Tenho um fascínio particular por filmes escritos pelo próprio diretor, ou dirigidos pelo próprio roteirista, seja como for. Este é o motivo pelo qual aprecio diretores como Woddy Allen e Tarantino, que além de dirigir de maneira muito peculiar, com as suas marcas impressas nos filmes, também escrevem as histórias e fazem direção e roteiro parecerem coisas dependentes entre si. Eis que cedi ao apelo comercial e, na última semana de exibição, fui assistir ao filme "A Origem", dirigido e escrito por Christopher Nolan. Me surpreendi.
Confesso que o cartaz do filme que andam vinculando na mídia e nos cinemas me desanimou um pouco, deixa o filme com um aspecto de película comercial, que tem apenas como objetivo o lucro, explorando temas como fim do mundo e ação barata. Na verdade não é nada disso, Nolan acertou em cheio, fez um filme com roteiro de excelente qualidade, bela escolha de elenco, fotografia impecável, efeitos sonoros e visuais de tirar o fôlego. Nada que pareça com o que tem sido lançado por aí, finalmente algo original!
"A Origem" explora o mundo dos sonhos e da ficção científica, uma combinação que logo de cara já leva a crer que o filme será surreal (e de fato é), e com referências implícitas a alguns temas que já vimos por aí. Exemplos? Em alguns momentos o filme lembra bastante o já clássico "Matrix", com a ideia de realidade paralela fora da vida física, que existe dentro da nossa mente, mas que possui suas influências negativas em nossa "vida mundana". Outra referência é o livro "Ubik" de Philip Dick. Embora eu só tenha encontrado um comentário sobre isso em um fórum antigo no IMDB, eu aposto e ganho que Nolan já leu esta obra-prima de Dick. "Ubik" está lá, no filme, no tráfico de informações pela mente das pessoas e nos sonhos compartilhados.
Bom, com tantas referências, ainda dá pra afirmar que o filme seja original? Claro que sim! "A Origem" inova em vários aspectos: a arquitetura dos sonhos, o McGuffy que funciona como um beliscão (através de objetos como um pião, um dado e uma peça de xadrez, os personagens descobrem se estão no próprio sonho ou em outro, alheio) e os diferentes níveis de sonhos (no caso do filme é possível chegar a três níveis de profundidade). Além disso, eu não poderia deixar de citar os processos de "extração" e "inserção", assista o filme e os entenderá!
Acho que este é um caso em que não se deve relatar a sinopse do filme, é bem melhor assisti-lo para entender e ficar sabendo do que se trata a história. O início do filme é tão confuso e tão intrinsecamente ligado ao fim, que qualquer detalhe que eu contasse aqui poderia arruinar sua experiência de assisti-lo. Aproveitando que usei este adjetivo "confuso", prepare-se! "A Origem", como toda ficção científica e filmes com temas oníricos, não foi feita para explicar e deixar tudo claro, mas sim confundir. Há momentos em que você vai se perguntar? Como assim, é isso ou aquilo? Esta é a proposta de Nolan, nas pegadas de David Lynch.
E as atuações? Ótimas. Leonardo DiCaprio não é apenas um galã de Hollywood, que faz filmes românticos com atuações medianas. O cara provou que sabe atuar e convencer em seus personagens. O mesmo se diga da atriz que fez a Juno (Ellen Page), muito bem escolhida. Outro ator de grande destaque é um dos membros da equipe, que se parece muito com o Heath Ledger, o jovem Joseph Gordon-Levitt. Acho que Nolan escolheria Heath Ledger, se ele fosse vivo.
Será que dá pra afirmar que "A Origem" é o filme do ano? Talvez sim, talvez não. Uma coisa difícil o filme de Nolan já conseguiu: mostrou-se muito melhor que outros bons filmes lançados este ano, como "Ilha do Medo" e "O Escritor Fantasma", de Scorsese e Polanski, respectivamente. A grande questão é que o mercado cinematográfico dos EUA deixa para o fim do ano suas grandes apostas, em vistas do Oscar. Algo me diz que vai aparecer coisa boa por aí, mas "A Origem" já conquistou o seu espaço. Em tempos de filmes comerciais vazios e remakes bem mal estrelados, Christopher Nolan inovou. Quem sabe o diretor não faça jus ao nome de seu filme, dando origem a uma nova boa fase do cinema norte-americano?



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