Coração Louco



No período do Oscar do ano passado, tive pela primeira vez a experiência de 3 meses de férias, ou seja, muito tempo para assistir a todos os filmes indicados pela Academia. Assisti a grande maioria no cinema, alguns tive que baixar e outros só encontrei na locadora. Um deles é "Coração Louco", que, pelo que me parece, não chegou a ser exibido nas salas de cinema aqui de Juiz de Fora. Como não deu pra assistir ao filme, que tinha sido indicado na categoria de melhor ator, só ouvi mesmo a música tema, indicada como melhor canção.

Agora que "Coração Louco" saiu do status de lançamento e ficou mais barato para alugar na locadora, resolvi assistir. O filme é ótimo, muito bom mesmo, mereceu as duas vitórias no Oscar (melhor ator e canção).

Trata-se da história de um norte-americano, cantor country e de meia-idade, que se encontra em uma fase difícil da vida, comum a quase todos os artistas que estendem suas carreiras: suas músicas já não fazem sucesso entre a nova geração, o vício da bebida e cigarro o corroem e a dificuldade em compor novos singles reduzem o número de shows e consequentemente os cachês. O cantor faz uma turnê por seis estados americanos, tocando em bares meia-boca, com bandas improvisadas e salário baixo. O clima não é tão deprê quanto parece, o personagem de Jeff Bridges é veterano no mundo da música, e o fato de estar quase sempre bêbado faz com que ele solte pérolas engraçadas, principalmente para quem já teve banda e conhece este mundo da música, como: "o quê? Não vou abrir o show dele, todo mundo sabe que o sonho do guitarrista é que um dia o vocalista da banda abra um show seu..". Além desse diálogo, há outro durante uma mixagem de som, em que o controlador da mesa não aceita as instruções do músico beberrão, e este último solta: "o controlador de som quer sempre deixar o show de abertura mais ou menos, pra que o público ouça boa música mesmo é no show principal". E não é que isso acontece mesmo? 

O filme é profundo, trata de um tema verdadeiro e cruel: o alcoolismo e as inevitáveis crises existenciais geradas pela bebida, influenciando a vida social e principalmente amorosa, que é o foco do filme. Jeff Bridges atua tão bem que o seu personagem realmente ganha vida, como se fosse a interpretação de um músico que realmente existiu e está sendo homenageado, através do relato de sua história. A interpretação é tão boa que muitos consideraram a vitória do ator como a mais previsível da história do Oscar. 

Quanto a canção que venceu o prêmio da academia: mais do que merecido. Acho que é a minha preferida, ao lado da música "Al otro lado del río", que venceu o Oscar em 2004. "The Weary Kind", canção de "Coração Louco" é excelente, e não significa apenas uma boa música, mas tem profunda ligação com o filme: é o single que o personagem de Jeff compõem após tantos anos sem escrever. (Um outro caso, que me lembro, em que a música vencedora foi escrita pelo personagem principal é no caso de "Lose Yourself", escrita pelo personagem de Eminem em "8 mile, Rua das Ilusões").

O título do filme, sinceramente, não combina muito com o enredo. "Crazy Heart" é um trecho da música citada, mas podia ter sido outra coisa, não? A adaptação pro português "Coração Louco" é ainda mais estranha, já que dá ao filme a impressão de um filme romântico. A verdade é que, julgando pelo fim da história (que não contarei, claro), não há nada de coração louco, mas sim um coração duro por parte do diretor, pois fazia muito tempo que não via um filme com um desfecho inegavelmente sutil, mas ao mesmo tempo tão cruel.

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