Cães de Aluguel
Foi em 1984 que um jovem de 21 anos, balconista de uma vídeo-locadora em Manhattan Beach, começou a escrever os seus primeiros roteiros, sem grandes ambições e apenas inspirado no que conhecia e gostava de cinema. Tal garoto era Quentin Tarantino, que mais tarde se tornaria um dos maiores diretores e roteiristas norte-americanos. "Reservoir Dogs" é o nome em inglês de seu primeiro filme profissional. Nunca encontrei nada muito objetivo explicando este título e acredito que "reservoir" seja uma referência ao armazém onde se passa a maior parte da história, já que esta palavra em francês significa "depósito, reserva". Porém, já encontrei na internet uma história de que a palavra francesa era uma brincadeira com outra de pronúncia parecida: "au revoir", que por significar "adeus" também faria sentido com a história.
Tarantino era inegavelmente inexperiente quando escreveu o roteiro do filme e o rodou em 1992, mas a estética do diretor estreante já o colocava em uma posição de destaque entre os seus contemporâneos da mesma idade. Os flashbacks típicos da filmografia do diretor já aparecem em "Cães de Aluguel" e exploram a preferência do roteirista por histórias não lineares e por um apanhado de acontecimentos expostos sem muito rigor cronológico. O filme começa com um diálogo extravagante: a explicação do personagem Brown (interpretado pelo próprio Tarantino) sobre o verdadeiro sentido da música "Like a Virgin", da Madonna. Nesta cena, o núcleo protagonista do filme, formado somente por homens, discute em uma mesa de restaurante coisas banais sobre a cultura norte-americana. Eles estão juntos porque assaltarão em conjunto uma joalheria.
Para que o assalto dê certo, o líder do grupo determina que os membros sejam identificados por nome de cores, evitando a descoberta de detalhes de suas vidas pessoais. O grande problema é que o roubo dá absolutamente errado e os assaltantes se tornam paranóicos com a desconfiança que toma conta de cada um em relação ao caráter dos outros. O elenco foi muito bem formado, com atores consagrados - como Harvey Keitel e Tim Roth - que dão vida a bandidos com personalidades muito bem definidas, alguns deles excêntricos, outros muito confiantes ou ainda os de temperamento explosivo. Uma das cenas mais memoráveis é a dança do psicótico personagem Mr. Blonde (ao som da empolgante canção "Stuck in the Middle with You") enquanto decepa uma parte do corpo de um policial. Outra sequência marcante é a do desfecho, que presta uma homenagem do diretor ao western, gênero que Tarantino é fã, recriando uma cena semelhante a "Três Homens em Conflito" (1966), de Sergio Leone, quando todos os personagens na tomada apontam sua arma para o "colega" ao lado.
Tarantino era apenas um novato quando criou este clássico cult, porém, poucas vezes na história do cinema um filme piloto funcionou tão bem e talvez muito melhor que obras de sua fase mais amadurecida, como "À Prova de Morte", de 2007. A estreia do diretor como um profissional no cinema teve impacto suficientemente grande para torná-lo em um tipo raro de realizador que produz pouco, mas em boa qualidade. "Cães de Aluguel" é um daqueles filmes que nos provam que o bom cinema não está necessariamente ligado à um grande orçamento. Muitas vezes, basta um lápis, papel, uma mente genial e muito tempo ocioso no balcão de uma vídeo-locadora.
* Este texto foi revisado e reescrito em 08 de Novembro de 2018.



Comentários
Postar um comentário