Um olhar do Paraíso


Assisti no cinema ao filme "Um olhar do Paraíso", de 2009, indicado ao Oscar na categoria de melhor ator coadjuvante. Havia uma grande expectativa em torno do filme mais sentimental de Peter Jackson, depois de sucessos comerciais como o remake de King Kong e a trilogia "O Senhor dos Anéis". O filme conta a história de uma adolescente assassinada aos 14 anos por um vizinho psicopata. "The Lovely Bones", título original do filme em inglês, é uma adaptação de um romance que conta a mesma história, se tornou best-seller nos EUA e logo foi adaptado para as telonas. 

O que mais chama a atenção no filme é o fato de ser uma das poucas produções em que o protagonista morto narra a própria história (algo semelhante ao que foi feito em "Crepúsculo dos Deuses", em 1950). Susie Salmon narra os momentos anteriores ao seu homicídio e inclusive sua própria morte, passando pelo limbo e sua chegada ao céu. É exatamente nas imagens do limbo que o filme ganha todo o seu mérito. Susie cria uma vida após a morte particular, caracterizada por elementos infantis e algumas cafonices dignas de uma garotinha de 14 anos da década de 70. No seu próprio "céu", procura estabelecer contato com a família (seu pai é representado claramente por um coreto no meio de um gramado), se livrar de traumas (o milharal) e lidar com a ira de seu pai inconformado com o crime. As atitudes do pai vivo interferem no mundo de Susie, como quando as suas miniaturas de barco são quebradas de verdade e Susie pode vê-las como embarcações reais se chocando contra pedras. Uma cena marcante.

O que infelizmente diminui "Um olhar do Paraíso" são as más escolhas de elenco e os caminhos percorridos pelo roteiro. O ator que interpreta o pai da garota, Mark Wahlberg, está péssimo, o que dificulta a transmissão ao espectador da dor que um pai certamente passa ao perder sua filha mais velha. Rachel Weisz, como a mãe da garota, parece uma personagem pouco convincente e verossímil  quando decide abandonar a família para trabalhar em um pomar em um lugar distante, como se fosse o Forrest Gump. Acertaram na escolha da atriz que interpreta Susie - Saoirse Ronan - que já tinha ido bem em "Desejo e Reparação", mas o maior acerto de todo foi a escalação de Stanley Tucci para o papel do psicopata,  que foi indicado ao Oscar naquele ano.

"Um Olhar do Paraíso" não é um thriller convencional. Talvez por isso não tenha sido recebido pela crítica de forma tão calorosa. Muitas pessoas criticaram a história por causa de sua estética muito vibrante nas cenas de vida após a morte. Eu, no entanto, sempre interpretei esses momentos como um ponto positivo, pelo seu experimentalismo. A história não quer se limitar a contar a resolução de um assassinato. Existem preocupações um pouco melo-dramáticas, principalmente em relação à família, que de certa forma me lembraram "Ghost", de 1990. Essa pegada novelesca, no entanto, me pareceu uma tentativa de aproximar a história do público convencional. O tiro saiu pela culatra, porque o filme fez pouco sucesso nos cinemas e também não convenceu os críticos. O resultado foi um filme médio que ganhou o status de cult pelo seu insucesso. Mais tarde, quando forem analisar a carreira de Peter Jackson, tenho certeza que "Um Olhar do Paraíso" chamará mais a atenção do que fez quando foi lançado.

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