Lixo Extraordinário


O Brasil já possuía um excelente documentário com foco no tema do lixo. "Estamira", de Marcos Prado, foi um premiado filme muito exibido no Canal Brasil, que filmou o dia-a-dia de uma catadora de lixo carioca, portadora de deficiências mentais que não a impediram de trabalhar dia e noite no aterro de Duque de Caxias. Recentemente ganhamos mais uma produção com este tema. Estou falando do indicado ao Oscar "Lixo Extraordinário", co-produção britânica-brasileira, que está em cartaz no Brasil. É a primeira vez que nós possuímos um documentário indicado pela Academia e não se trata de um filme que se limitará às salas de aula ou às palestras de faculdade, mas sim de uma das melhores produções nacionais já realizadas.

A questão da produção de lixo preocupa e é recentemente lembrada nas propagandas de diversas Ong's famosas. No caso do filme em questão, o foco não é propriamente a preocupação ambiental, mas todo o problema social e psicológico vivido pelos trabalhadores do lixo, tudo isso em meio à produção artística inacreditável de Vik Muniz. O prólogo do documentário é o Programa do Jô. O gordinho cópia descarada do David Letterman anuncia como entrevistado o artista Vik, que é questionado pelo entrevistador: "como começou a ideia de fazer arte com o lixo?". A partir daí conhecemos o ponto de partida da ideia...Vik estava cansado de fazer arte burguesa em Nova York e decidiu inovar, ficando famoso por seus trabalhos com objetos inusitados, transformando rostos, paisagens e quadros famosos em trabalhos feitos com pigmentos ou açúcar, por exemplo. Querendo ser ainda mais original, Vik vai para o aterro sanitário de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro (o maior do mundo em volume de lixo) e seleciona alguns catadores para se envolverem em seu novo trabalho: fazer arte usando lixo.

Diferente dos documentários de Michael Moore e suas narrações com frases de efeito, "Lixo Extraordinário" tem os melhores momentos nas falas e revelações dos catadores. Vik guia toda a história, mas o seu pensamento e suas convicções são ingênuas e superficiais, como é o caso da frase: "eles, os catadores, não parecem ser deprimidos", como assim? Na realidade não dá pra culpar o artista. Embora ele tenha tido um passado de pobreza e tenha se tornado rico por um golpe de azar (que virou sorte) é difícil para um burguês erradicado nos EUA compreender a verdadeira situação dos trabalhadores do Jardim Gramacho, que obviamente tiveram um súbito acesso de felicidade com a visita da produção inglesa.

Os grandes responsáveis pela grandeza do filme são os personagens reais escolhidos por Vik para ajudá-lo na criação das obras. Um deles é Tião (o modelo da foto acima), líder sindical de bem com a vida, que já leu Maquiavel e Nietzche e achou que este último possuía "uma filosofia de vida muito maneira". Tião não é nenhum intelectual esnobe, muito pelo contrário! Toda a cultura do catador de lixo vem dos livros achados no aterro, que ele colocou para secar atrás da geladeira e guardou no seu acervo. Falando em acervo, é também marcante a figura do catador Zumbi, que tem como sonho criar uma biblioteca com os milhares de livros que encontrou no lixo.

O ápice do documentário co-dirigido por João Jardim está no momento em que as obras de arte de Vik começam a ganhar vida. O artista tira fotos dos catadores escolhidos por ele e logo depois reproduz tais imagens usando uma grande quantidade de lixo. O momento em que vemos a primeira obra ser montada é surpreendente, embalado pela trilha sonora eletrônica do músico Moby. Depois de tirar as fotos, Vik as transformou em grandes quadros e colocou alguns em leilão e outros em exposição, convertendo todo o dinheiro ganho para os catadores que realizaram junto com ele os projetos.

Uma angústia muito grande deve ter dominado todos os espectadores do documentário, já que próximo ao fim do filme ficamos no aguardo de descobrirmos se a vida dos catadores sofre uma reviravolta ou se os mesmos retornam ao seus barracos e continuam a trabalhar no lixão. Longe da pretensão de salvar a vida dos trabalhadores do aterro de uma vez por todas, o filme não tem conotações explicitamente políticas. O que apenas se busca mostrar é a condição dos catadores e a possibilidade de fazer arte em um lugar tão hostil, mas digno de se trabalhar. O artista Vik não tirou milhares da pobreza, mas deu a oportunidade de pessoas tão "sem sorte", termo que ele usa, de viver bons momentos, como visitar Londres (no caso do Tião), ou ir pela primeira vez em um museu ver sua própria face nos quadros. O resultado de todo este trabalho artístico-social foi um excelente filme parcialmente nacional, o recorde de segunda exposição com o maior número de visitantes da história (Vik perdeu apenas para Pablo Picasso) e a possiblidade de que se quebre um tabu no Oscar.

(Este texto foi revisado em 5 de julho de 2019)

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