A Sombra de uma Dúvida


Alfred Hitchcock disse certa vez que a sua produção preferida era "A Sombra de uma Dúvida". O motivo, segundo ele, é que adorava filmar em cidades pacatas, inocentes e pouco propícias a se tornarem cenário para um filme de horror. Ele fez isso em "Os Pássaros", de 1963, quando um monte de corvos e outras espécies voadoras famintas sobrenaturalmente infestaram a cidade tranquila de Bodega Bay. No caso do seu filme predileto, o horror que acomete a pequena cidade onde a história se desenvolve é mais brando, restrito ao núcleo familiar e de caráter mais psicológico: um tio aparentemente bacana chega à cidade para visitar os parentes, mas trás consigo uma suposta acusação de assassinato em série.

Logo no início da história, nos deparamos com o Tio Charlie (bela atuação de Joseph Cotten - de "Cidadão Kane") sendo acordado por sua camareira e informado de que dois homens estiveram a sua procura. Neste típico cenário de um romance de Kafka, Charlie rapidamente se apronta e escapa da dupla de policiais a sua procura, alegando para a criada que não os conhece e que é inocente. Sem lugar para se hospedar e temendo ser encontrado novamente, o tio misterioso vai visitar sua família na cidadezinha de Santa Rosa, Califórnia. Na cidade, Charlie é alegremente recebido pelos parentes, sobretudo por sua sobrinha homônima, interpretada por Teresa Wright, que vê no tio uma figura capaz de salvar a família da monotonia que a vinha acometendo. O interessante é que, ironicamente, Charlie só consegue criar problemas para a moça iludida, já que ela começa a perceber aos poucos que há algo de errado com seu tio.

O mais interessante do filme é a leveza dos diálogos, a sutileza dos cenários e, principalmente, o elenco muito bem escolhido. A irmã de Charlie e o seu marido são típicos norte-americanos do interior, preocupados com um bom acolhimento ao visitante, com os cuidados da casa e um bom jantar. A sobrinha xará do tio é simpática e inocente. Há uma certa suposição de que ela se apaixonou platonicamente pelo tio, o que é bem curioso. As duas crianças da família são muito bem interpretadas e destaca-se a mirim Edna May Wonacott, uma menininha um pouco impertinente de aproximadamente 10 anos, mas que dispara frases inteligentes e bem humoradas. Falando em humor, o personagem crítico literário amigo do pai da família garante boas risadas, com assuntos macabros a respeito de como matar alguém sem dar na pinta.

É ótimo assistir a um filme do início da fase norte-americana de Alfred Hitchcock e perceber elementos de filmagem que viriam a aparecer novamente em suas produções mais maduras, como é o caso de uma tomada de perseguição policial, com a câmera filmando do alto de um prédio, escolhido a dedo pelo diretor. É mais legal ainda saber que o roteiro deste filme foi co-escrito por sua esposa, pessoa sempre presente nos bastidores das produções de Hitchcock. Embora não seja o meu filme preferido do diretor, é certamente uma obra importante dos seus primeiros anos de trabalho nos Estados Unidos.

* Este post foi revisado e reescrito em 13 de dezembro de 2018.

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