Cisne Negro
É incrível como o surrealismo cinematográfico está na moda. Isso é ótimo. Se por um lado critico filmes difíceis de entender, por outro fico feliz que o cinema esteja produzindo películas sem o famoso clichê do final mastigado, onde tudo é compreendido e acertado. Talvez seja este o principal mérito de "Cisne Negro": não estragar uma história que seria bastante simplória com um final esclarecedor. Na realidade o filme é tudo e mais um pouco. O que vi no cinema hoje à noite foi um espetáculo de direção, fotografia, bom roteiro e atuação incrível da protagonista, tudo isto ao som de uma emocionante música orquestrada.
Natalie Portman (a eterna Queen Amidala, de "Star Wars") interpreta Nina, uma bailarina descontente com a dificuldade em se estabelecer na companhia de balé onde atua. Esforçada, comprometida com os ensaios e bastante empurrada pela mãe, a dançarina vive o eterno drama das meninas de sua classe: baixa auto-estima, cobrança e calos nos pés. Sua sorte muda de vez quando conquista uma posição almejada dentro da academia: Nina será a intérprete das gêmeas "Cisne Branco" e "Cisne Negro", no espetáculo "Lago dos Cines", obra do compositor russo Tchaikovsky. O grande problema é que Nina atua e dança com perfeição apenas quando incorpora o "Cisne Branco", já que de acordo com o diretor da peça, a bailarina se prende e controla-se demais ao dançar como o "Cisne Negro". A partir daí, o drama de Nina é alcançar a perfeição representando seus dois personagens, sendo que, aos poucos, o seu desejo se transforma em uma obsessão que dá pano de fundo a todo o terror psicológico do filme.
Diferentemente dos temas constantes nos filmes de suspense e terror modernos, tais como aparições fantasmagóricas ou matança geral, "Cisne Negro" segue as pegadas de "Ilha do Medo", de Scorsese, e busca o terror surreal, onírico, psicológico, daqueles que você chega quase ao ponto de desejar que o personagem se belisque, para ter certeza se aquilo aconteceu ou não. Não se preocupe muito com interpretar a história. O melhor do filme é admirar a obra de arte que é a interpretação de Portman, como também valorizar os ótimos efeitos visuais que surgem nos devaneios (ou era realidade?) de Nina. Além disso, vale a pena também parar de pensar um pouco e simplesmente contemplar o balé encenado e ouvir a excelente música orquestrada "Swan Lake", que se eternizará como tema de "Cisne Negro" daqui para a frente. Outro grande destaque na produção é a direção de Darren Aronofsky, que apesar do nome é norte-americano, e que utiliza a câmera de maneira peculiar: segue os atores e faz a tela balançar em movimentos nauseantes. O auge do talento do diretor está nas cenas finais, na encenação de "Lago dos Cisnes" e na transformação inacreditável do visual de Nina, como o seu alter-ego.
É interessante que um filme hollywodiano, com uma protagonista bailarina e com a maioria de suas tomadas filmadas em um balé mostre exatamente o lado negro dos bastidores deste espetáculo. O diretor da peça que Nina atua é sem caráter, um típico oportunista, e sua mãe apenas deseja para a filha aquilo que não conquistou: sucesso. A mãe não vê limites para assegurar o bom desempenho da filha e sua disciplina, passando por cima de valores como a liberdade e do diálogo aberto que poderia ter com ela. Assustadoras não são apenas as cenas em que Nina sangra, se mutila e desconhece o próprio estado de saúde devido à "cegueira" causada pela dança. É de dar medo pensar que a obsessão pelo sucesso, inimizades criadas e a doença sejam um mal necessário para a elaboração de um espetáculo tão belo como uma peça de balé.



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