Minhas Mães e Meu Pai


Pense bem e quantas vezes você já não viu no cinema a velha e boa "família americana"? Pai bem sucedido, mãe dona de casa e filhos bonitos... No estilo daquela família divertida do clássico "Curtindo a vida adoidado"! É verdade que há um monte de filmes que tentam desconstruir essa ideia, como por exemplo o conturbado núcleo familiar de "Preciosa", ou a vida difícil do rapper B-rabbit em "8 Mile". Foi só hoje que assisti a um filme que foge deste ideal de família de maneira bastante peculiar: utilizando um casal de lésbicas como chefes da casa. É verdade que o cinema é moderno, mas um tema como este não é eventualmente tratado no circuito comercial. Tocar na ferida da maior tradição dos Estados Unidos, que é a dita "família tradicional", não só foi uma tarefa ousada como bem sucedida, visto que "Minhas Mães e Meu Pai" se tornou um dos indicados ao Oscar de melhor filme. 

Confesso que quando vi a indicação, logo lembrei da comédia-romântica que pintou no Oscar no ano passado "Amor sem Escalas". Lembro que ninguém entendeu o que o filme estava fazendo lá, pois não passava de uma história boba, com atuações medianas e uma pretensão de filme dramático. Minha lembrança se esvaiu hoje, depois que finalmente assisti ao filme em questão. Na realidade, "Minhas Mães e Meu Pai" não se trata propriamente de uma comédia. Embora haja sim situações cômicas, os momentos dramáticos são mais frequentes e o que fica no espectador não são os risos, mas a mensagem que se busca passar. Diferentemente dos filmes da fase intimista de Woody Allen, acredito que a ideia não é passar uma imagem da decadência do núcleo familiar. Pode até ser que essa impressão fique em quem assiste o filme, mas o casamento gay, os filhos, o ciúme e finalmente, a traição, são assuntos tratados com maior sutileza, evitando que o clima fique deprê, o que infelizmente Woody Allen não consegue evitar (brincadeira). Não vou contar a história do filme, já que este é um dos casos em que qualquer detalhe seria um spoiler, mas o que é possível adiantar é que "Minhas Mães e Meu Pai" começa com a busca de filhos adotivos de um casal de lésbicas por seu pai verdadeiro, o que conseguem através da clínica de inseminação que "os concebeu".

A atuação da lésbica "pai de família", por Annette Bening, é realmente convincente. Aos poucos dá pra perceber que ela de fato é a "patriarca", seguindo certos estereótipos como o pai linha dura e desconfiado. A indicação ao Oscar foi merecida porque Annette não só psicologicamente, mas visualmente se transforma em uma lésbica, o que Julianne Moore infelizmente não consegue fazer. Mas não a culpemos, e sim o roteiro. Um destaque que me surpreendeu foi a melhor atuação de Mark Ruffalo que já assisti até então, ator que foi indicado ao Oscar pelo papel e que novamente contracena com Moore, depois de "Ensaio Sobre a Cegueira". Não vou estender muito o post já que "Minhas Mães e Meu Pai" é interessante, mas não rende tanto assunto assim. Ao assistir ao filme, minha impressão foi de que pintou mais um "clássico cult" moderno, como os recentes "Juno" e "Pequena Miss Sunshine", filmes que não marcam pelos roteiros ou o gigantismo, mas sim pela pretensão honesta e a sutileza.

Ps: Este texto foi relido em setembro de 2018 pelo editor do blog, que discorda de alguns termos usados por ele no último parágrafo, por usar expressões que sustentam a ideia machista de que o homem é o responsável por conduzir uma família. Optei, no entanto, por não suprimir este parágrafo, pois ele é revelador de que houve uma desconstrução do pensamento do editor ao longo desses sete anos de blog.

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