O Discurso do Rei


Peraí! É impressão minha ou acabo de assistir a um filme sobre um rei gago, um cara legal disposto a ajudá-lo e um final feliz? O premiado "O Discurso do Rei" não passou de um filme superficial para mim, que desde sua sinopse já apontava para um tema vazio e que invariavelmente recorreria ao velho clichê da doença e o longo e conturbado caminho até sua cura. O filme é baseado em uma história real (como vem sendo todos os filmes sobre a realeza inglesa), mas não utiliza deste rótulo para ganhar fama. Ironicamente, foi exatamente a realidade da história e o seu desfecho previsível que levaram a produção para o lugar comum: o eterno "felizes para sempre", depois de caminhos tortuosos e uma história comovente. Embora os diálogos sejam enriquecidos com o humor sarcástico e espirituoso do personagem responsável por auxiliar o Rei George VI em seu problema de fala, faltou algo mais do que uma gagueira e sua superação. Diferentemente de "Gênio Indomável", em que os conflitos do superdotado interpretado por Matt Damon são a ponta de um iceberg para uma crise existencial mais profundamente trabalhada, em "O Discurso do Rei" não vemos mais do que um fato marcante no passado do rei e sua dificuldade em compreender a vida do "homem comum", o que ocupa poucos minutos da película. 

Como todo filme inglês, boa parte do elenco de "Harry Potter" está lá, incluindo a péssima interpretação de Churchil por Timothy Spall e uma aparição do velho Dumbledore como o rei George V. Mas o que vale mesmo, no que diz respeito ao elenco, é a excelente transformação de Colin Firth em um rei inseguro e o papel de Geoffrey Rush como o seu ajudante na tarefa de corrigir a fala engasgada. Ambos são merecedores do Oscar... Se o roteiro, filme e direção não são nada do que andam falando por aí, é de se levar em consideração a ótima fotografia (melhor dos indicados ao Oscar sem dúvida) e a direção de arte que conseguiu passar exatamente a sensação de localização em um ambiente real (no sentido de realeza mesmo), considerando que boa parte do filme foi gravada em estúdio.

Por fim, nem preciso dizer que o filme favorito ao Oscar certamente foi o que menos me agradou até então. No entanto, vale a pena citar um bom momento: assistindo à projeção de um comercial Nazista, o rei gago olha com admiração a eloquência de Hitler. Ao ser questionado por sua filha qual era o conteúdo do discurso do alemão, o pai responde que desconhece, mas que sem dúvida ele falava muito bem. Curioso que, naquele momento, a entonação e a fala sem tropeços não valiam de nada comparadas ao conteúdo fascista e imoral das palavras do ditador. Talvez o importante não fosse falar bem, mas falar o bem. Não digo que a Inglaterra fez isso na Segunda Guerra...mas isso já é outra história...

Comentários

Postagens mais visitadas