O Mágico


Desde "Cisne Negro" não tenho vontade de escrever tanto sobre um filme como agora. Vou deixar o meu desejo de lado e falar pouco, menos por simples vontade de ser breve do que pela falta de tempo.
Hoje à tarde percebi que poucos frequentam as sessões de animação sem o rótulo de "infantis". É só algum casal de namorados ver o cartaz de um desenho animado obscuro e desistir de ir pro cinema, já que o preconceito logo o classifica como um filme de criança. Por outro lado, os pais e seus filhos pequenos já se desinteressam só de ver o cartaz, pois julgam que é uma daquelas animações pra adulto, que os remete à experiência traumática de ir assistir um filme do Hayao Miyazaki e saírem constrangidos da sala. Estes dois fatores condenam as sessões de animação ao mais duro e gelado processo de desertificação, uma vez que o frio na sala do cinema Alameda era praticamente siberiano.

Bom, deixando todo o aspecto triste e poético de lado, o filme "O Mágico", do diretor francês Sylvain Chomet, é uma peça rara das animações modernas. Não é difícil criar um desenho animado que se diferencie dos demais no aspecto visual: basta optar pelo 2D. Ultimamente, a Disney, Pixar e Dreamworks tem tido a triste ideia de fazer qualquer animação na tão recente e já envelhecida técnica das três dimensões. Legal, com "Toy Story" ficou ótimo, com "Shrek" também foi bem divertido e, por fim, "Procurando Nemo" utilizou o visual 3D da melhor forma possível. Os estúdios, no entanto, empolgaram e agora só lançam filmes com essa técnica. Todo mês há pelo menos uns 3 desenhos em estreia, todos com roteiros fraquíssimos. Mas as três dimensões estão lá, ainda mais visíveis que na década de 90, pois agora, pagando um pouquinho mais você também usa um óculos que torna tudo mais divertido... Já chega! Queremos os clássicos da Disney novamente desenhados a mão, como em  "Branca de Neve", "A Bela e a Fera" e o eterno "Rei Leão". Eu até topo ouvir aquelas canções compostas pelo Elton John de novo, mas abandonem o 3D!!!

Fico satisfeito de ter assistido hoje um desenho em 2D magnífico, obra de arte digna de entrar no top 10 dos cinéfilos que curtem uma boa animação. O roteiro de "O Mágico" foi utilizado de forma curiosa. A história foi escrita pelo cineasta Jacques Tati, que embora a tenha escrito, nunca a dirigiu. Como forma de homenagem e de oportunismo, pois tão bom roteiro não poderia ser esquecido, Sylvain Chomet levou a história finalmente aos cinemas, e fez isso com maestria. Com raros diálogos e sem legendas, o filme nos leva a um pub bem underground de Londres, onde um velho ilusionista se apresenta, mas logo se decepciona com a concorrência desleal de uma outra atração: uma banda de rock bem caricata. A vida do mágico não é nada boa: parece que o mundo em que ele vive está esquecendo aos poucos as tradições circenses como os truques de magia, os palhaços e os ventríloquos. Pulando de galho em galho, o ilusionista visita cenários como uma cidadezinha irlandesa e a Escócia. O seu trabalho é pouco reconhecido (seu público é quase tão pequeno quanto os gatos pingados da sessão de cinema em que eu estava), mas vai levando a vida, acompanhado da espirituosa e compulsiva amiga Alice e o seu coelho companheiro de trabalho. A reflexão maior da película fica por conta das dificuldades enfrentadas pelo casal de amigos pouco prováveis, no estilo "Cinema Paradiso", senhor idoso e garotinha nova, que sobrevivem com o pouco dinheiro recebido pelo mágico por seus espetáculos.

Embora haja a delicadeza dos filmes de desenho, "O Mágico" é bem melancólico, empurrado pela magnífica fotografia (posso chamar assim no caso de animação?) e trilha sonora tipicamente européia, já que se trata de um filme anglo-francês. O uso da luz e da chuva é impressionante, ainda mais quando se trata de fenômenos inventados pelo animador, como o por do sol ou a tempestade sobre o palácio de Buckingham, que não existiram senão no papel. O brilhantismo do filme deve ser unanimidade entre os críticos, já que nem o comentarista de cinema mais chato de todos poderia falar mal da animação. Maior do que a tristeza do desfecho é saber que o filme concorre no Oscar, disputando com "Toy Story 3". Não é nada contra o Oscar, mas é triste que a Academia tenha colocado o filme na disputa, pois "O Mágico" não é apenas um desenho. Não é justo comparar entretenimento com arte, uma vez que o primeiro tem vencido constantemente nas últimas edições do evento e vencerá este ano também. Prometi que ia falar pouco e não cumpri, mas "O Mágico" é digno de um post maior do que os outros...

Comentários

Postagens mais visitadas