Deus e o Diabo na Terra do Sol


A obra-prima de Glauber Rocha é considerada por boa parte da crítica como o melhor filme brasileiro já realizado. Não sei se concordo com isso ou não - acho que não - mas eu diria que o filme impressiona por vários fatores, principalmente os técnicos. Além da peculiaridade da direção, o que vi foi algo completamente diferente do cinema que o Brasil está acostumado a produzir atualmente: uma outra tendência, muito mais artística. "Deus e o Diabo na Terra do Sol" estreou em 1964, um pouco depois do golpe político militar ocorrido no nosso país, período em que Glauber e outros cineastas davam início a uma fase de vanguarda no cinema nacional, movimento chamado "cinema novo". Assim como a miséria do nordeste já tinha sido abordada em filmes anteriores, o grande foco da produção é a vida no sertão. Cangaceiros, coronéis, religiosos, todos estão lá. Até então nada de muito original... A questão é que Glauber criou um roteiro poético e musical, fundindo a sétima arte com todas as outras possíveis. Suas tomadas são obras de arte (veja a imagem que postei no início), a trilha sonora praticamente narra a história e a música clássica de Villa-Lobos dá o tom de grandiosidade e dramaticidade à obra.

O protagonista é Manuel Vaqueiro, sujeito pobre que mata em um impulso nervoso o seu injusto patrão. Carregando o remorso nas costas, foge com sua mulher Rosa ao encontro do messiânico Sebastião, que diz ser santo e carregar a palavra de Deus. Depois de tomadas longas, enfadonhas, mas brilhantes, percebemos que Manuel tornou-se um cego religioso, disposto a tudo pela religião tida como pagã pela igreja. Seu encontro com o "deus negro" dura pouco, e logo o vaqueiro entra para o bando de um diabo loiro, Capitão Corisco (interpretado por Othon Bastos, que pra mim é o melhor ator vivo brasileiro). Corisco é um cangaceiro antigo amigo de Lampião e que aceita Manuel no grupo, e o bando parte cometendo atrocidades pelo sertão. É interessante que tanto do lado do diabo ou de Deus, o pobre vaqueiro ouve sempre o mesmo discurso anti-republicano e nostálgico em relação ao império, além do descontentamento com o excesso de poderes da figura do "coronel".

Como todo filme nacional, há sempre os diálogos espirituosos e marcantes, como : "mostre que você é cabra e corte a macheza do homem", além das imagens simbólicas, como o mar nervoso do desfecho, uma clara alusão à frase de Antônio Conselheiro: "o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão". A fotografia em preto e branco (a melhor que já vi dos filmes que assisti até hoje) proporciona tomadas belíssimas e inteligentes, e daí a genialidade de Glauber. É uma pena que eu tenha ficado com a impressão de que a maneira como o roteiro é estruturado deixa dúvidas quanto à história e tudo acaba ficando meio vago. Foi só eu que senti isso? Acho que sim, pois o filme chegou a ser indicado no Festival de Cannes, o que já é um enorme feito. Glauber ganharia o festival francês algum tempo depois em mais de uma categoria. Embora este tenha sido o meu primeiro filme do diretor, já pude perceber o motivo dele ostentar até hoje o título de melhor cineasta brasileiro, mesmo depois de quase 30 anos de sua morte. Que ele sirva de exemplo aos nossos diretores contemporâneos.

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