Ensina-me a Viver
O status cult que possui o filme "Ensina-me a Viver" não é por acaso: o filme tem protagonistas improváveis, diversas cenas nonsense e explora exatamente o lado B da cultura dita convencional. Foram esses aspectos que mais me agradaram no filme, e não o fato de que a obra aborda o relacionamento entre um adolescente e uma senhora de 79 anos - algo bem incomum no cinema. A diferença de idade é enorme, mas vale a pena lembrar que no também clássico (e cafona) "Verão de 42" - um filme que sabe-se lá o motivo eu gosto muito - também foi apresentado ao público um casal com certa diferença de idade, embora neste caso seja menor a distância entre os dois, mas acreditem: o estranhamento é quase o mesmo. Coincidentemente, os dois filmes foram lançados no cinema em 1971!
Bom, voltando ao assunto do post, "Ensina-me a Viver" pode ser considerado uma obra de arte por vários aspectos, dentre os quais está a coerente trilha-sonora, a construção cômica e caricata dos personagens, além das atuações marcantes de Ruth Gordon (que conseguiu apagar da minha mente seu brilhante papel como a bruxa de "O Bebê de Rosemary") e o jovem Bud Cort, de olhos arregalados e postura tímida. Bud interpreta Harold, um garoto abastado que, por não desfrutar do devido carinho de sua mãe, acaba inventando maneiras de chamar sua atenção, através de uma estranha obsessão pela morte e dramatizações bem realizadas de diversos tipos de suicídio (enforcamento, corte dos pulsos, afogamento e tiro na cabeça). Quando não está frequentando funerais pela sua cidade, Harold passa pelos diversos "tratamentos" arranjados por sua mãe, que envolvem consultas em um analista freudiano, encontros com garotas superficiais e sermões de seu tio patriota, que deseja o ingresso do sobrinho nas forças armadas. Só por essa rotina, não é difícil perceber que Harold é um tanto deprimido, mas o jovem vê alguma mudança em sua vida quando encontra em Maude, uma senhora alternativa e animada, exatamente o oposto de seu espírito tímido e casmurro. A relação entre os dois não fica na chatice dos diálogos moralistas e nem no aprendizado que Harold poderia desfrutar com toda a experiência da nova amiga, mas sim nas aventuras bem extravagantes que a senhora irreverente os coloca, algo que envolve uma fuga na auto-estrada e o roubo de uma árvore pública.
Não é difícil imaginar que a relação entre os dois protagonistas caminhe para aquilo que Harold percebe como amor, mas que pouco interessa para nós espectadores, já que é a amizade e os momentos vividos entre eles aquilo que mais nos comove. O fascínio do garoto pela morte se vê inevitavelmente bloqueado diante da vontade de viver ao lado de Maude, e assim vemos uma personalidade transformada: talvez o grande mérito do filme e da atuação de Bud. É curioso que o roteiro, depois de tantos pontos altos, caminhe para o previsível e o desfecho (não vou contar, mas você imagina) tenha se tornado bem intragável para mim. Antes dos créditos, Harold pega seu banjo e toca algumas notas, enquanto dança discretamente: o garoto parece ter descoberto que, sua admiração pela morte não era tão irracional assim, já que é exatamente o fim da vida que garante a ela todo o seu significado.



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