Meia Noite em Paris
Woody Allen parece ter guardado este filme para calar os críticos malas que insistem que o cineasta não faz nada de bom desde "Desconstruindo Harry". Alcançando certa unanimidade entre seu público, Allen volta a tona com um romance fantástico (literalmente falando), mesclado com uma comédia um tanto quanto elitista e intelectual. Quando digo que "Meia Noite em Paris" é um filme que restringe seu público aos conhecedores dos principais expoentes da arte e literatura da segunda década do século XX não estou exagerando. Eu que conheço muito pouco das biografias de nomes como Dalí, Picasso, Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway fiquei boiando em alguns momentos, o que faz com que boa parte do humor do filme (que nos filmes de Allen se concentram nos diálogos) sejam perdidos. Tirando esse "lado ruim", facilmente evitado com uma prévia consulta na Wikipedia antes de ir pro cinema, o filme é ótimo: atrizes fantásticas, trilha sonora jazzística excelente, fotografia que exalta a linda cidade de Paris e um roteiro brilhante, cheio das marcas de Woody Allen.
As comédias de Allen com certo grau de fantasia não são tão raras assim em sua filmografia. Me lembro agora de "Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão", "Zelig" e o recente "Scoop", mas é em "A Rosa Púrpura do Cairo" que se concentra a maior auto-influência do diretor. Se no filme da década de 80 a personagem de Mia Farrow se apaixona pelo galã do seu filme preferido e vai viver com ele uma aventura amorosa atrás das telas, em "Meia Noite em Paris", o sem sal Gil (Owen Wilson) descobre uma Paris diferente do comum, onde o passado se encontra com o presente de maneira surreal. Encantado pela França da década de 20, Gil não só encontra inspiração para seu novo romance como descobre o amor, que julgava ter encontrado com sua atual noiva, que parece estar apaixonada por um mala pseudo-intelectual que encontra na cidade, um estereótipo eternamente satirizado por Allen.
Eu diria que este filme de Woody Allen provavelmente vai trazer a ele aquilo que o diretor parece odiar: indicações ao Oscar e, quem sabe, estatuetas. Isso na verdade não importa muito quando a real intenção de Allen parece ser fazer um cinema artístico, típico europeu, que escapa (principalmente nas locações) do seu cinema norte-americano. "Meia Noite em Paris" é, paradoxalmente, ao mesmo tempo uma crítica ao saudosismo e uma adoração aos tempos passados. No que diz respeito a sua importância para o cinema moderno de Allen, o filme não é apenas um retorno aos bons tempos do diretor como também revela que uma nova fase de sua carreira parece estar se inaugurando, que venha suas novas obras filmadas respectivamente em Roma e o já lendário filme no Rio de Janeiro!



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