Tudo Pode Dar Certo
A nova fase de Woody Allen, que a meu ver começa em 2004, com "Melinda e Melinda" é cheia de altos e baixos. Mais altos do que baixos, felizmente! Em 2004 o diretor fez um filme engraçado e original, sendo que no ano posterior dirigiu "Match Point", o único filme dessa leva recente que possui um tom mais dramático, embora com o seu romance característico. "Scoop", de 2006 é uma comédia bobinha mas bem feita e "Vicky Cristina Barcelona" uma confusão de relacionamentos na bela cidade espanhola, com a presença de Penélope Cruz, Scarlett Johansson e Javier Bardem, o que já dá ao filme um elenco melhor que o roteiro e a boa fotografia. Em 2010 o diretor lançou "Você Vai Conhecer o Homem Dos Seus Sonhos", que comentei no blog e que, infelizmente, não gostei. Mas esse post é dedicado ao filme de 2009, "Tudo Pode Dar Certo", que não pude ver no cinema na época (não estreou em Juiz de Fora - novidade) e que só aluguei hoje...
O filme do diretor que produz de ano em ano (o que é raro na indústria de cinema não comercial) é realmente bom. Se a capa e o título dão um ar de comédia romântica, o início já nos prova que "Tudo Pode Dar Certo" vai além disso. Sentados num bar, um grupo de amigos batem um papo cabeça, mas quem se destaca na conversa é o mais velho deles, um senhor chamado Boris, que com sua intelectualidade arrogante passa a dominar o assunto com seus argumentos. De repente, Boris se volta para a tela e começa um monólogo com o público (algo raro no cinema, só me lembro de um monólogo com Ferris em "Curtindo A Vida Adoidado"), o que conduz toda a história do filme, até o fim. Acompanhamos então a vida do típico personagem que Woody Allen encenaria, se não tivesse se aposentado das telas: paranóico, sistemático e intelectual. Até a gagueira de Allen e os gestos frenéticos com as mãos são imitados pelo ator que encena o velhinho que vive sozinho e dá aulas de xadrez para se sustentar. Essa vida rotineira e que Boris parece gostar é subitamente interrompida quando o homem encontra uma bela jovem na porta de seu prédio, pedindo ajuda e abrigo (tudo bem, vamos descontar o fato de que em lugar nenhum do mundo uma loira linda pede ajuda na porta do nosso prédio, até porque quando batem aqui em casa ou são os caras da campanha do quilo ou testemunhas de Jeová). Voltando ao filme, Boris inicialmente trata com desprezo a caipira "intelectualmente inferior" a ele e que só pensa em futilidades, mas aos poucos (como toda comédia romântica), o casal improvável dá certo e Boris e Melodie passam a viver em uma relação recíproca: o velho entra com os assuntos inteligentes (literatura, existência e física quântica - já que Boris é um quase-Nobel) ao passo que Melodie, embora reduzida a uma menina simplista pelo seu parceiro, parece contribuir na relação com sua jovialidade e o otimismo com que vê o mundo. Como Boris afirma em um diálogo, "whatever works", ficamos com aquilo que dá certo e o amor entre os dois caminha bem até que outras pessoas surgem e não vou estragar contando nada...
"Tudo Pode Dar Certo" não é uma comédia romântica diferente só por ter sido escrita e dirigida por Woody Allen. É claro que dificilmente eu alugaria o filme se não soubesse que é do diretor norte-americano (sim, julgo filmes pela capa). A verdade é que os diálogos (com piadas típicas de Allen e uma referência indireta genial a "Otelo", de Shakespeare) e os enquadramentos (há um muito engraçado envolvendo a estátua de cera do presidente Bush e uma crítica ao conservadorismo) fazem da obra mais uma interessante reflexão sobre temas existenciais do que um filme para rir e se sentir bem. Embora a falta de sentido da vida e o fracasso das relações amorosas não tenham sido abordados de forma tão profunda quanto nos filmes da fase "Bergman" do diretor, vale a pena refletir naquilo que "Tudo Pode Dar Certo" trabalha de forma primorosa: a fraqueza do homem em saber o que realmente quer e a transitoriedade do amor.



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