Melancolia


Eu devo ser mesmo muito corajoso para postar alguma coisa sobre Lars Von Trier e o seu mais recente filme "Melancolia". Vamos combinar que os filmes do cineasta dinamarquês quando não são polêmicos e confusos o suficiente, são apenas confusos ou no mínimo estranhos. "Melancolia" se encaixa neste último rótulo: é um filme estranho. A temática e os diálogos, bem como a construção do roteiro, me agradou muito mais do que aquilo que vi em "Dogville" e "Anticristo", sendo que o filme possui um prólogo realmente belo e fotografia por vezes bem futurista, que me lembrou as imagens espaciais de "2001", do Kubrick. Mas o que é estranho em "Melancolia" então? Sem dúvidas a temática. Os filmes apocalípticos do cinema comercial norte-americano podem ter trabalhado com a angústia e o sentimento de medo dos terráqueos frente a possibilidade de uma catástrofe global, mas no filme de Von Trier a possibilidade de um "fim do mundo" é mero pano de fundo e uma clara metáfora para o grande foco da trama: a melancolia sentida por uma noiva, logo na festa de seu casamento, e os efeitos da súbita depressão em sua vida pessoal e familiar.

A primeira parte do filme (dividido em dois capítulos que narram ora a história de Justine, ora a de Claire, sua irmã) é centrada especificamente no fracasso da festa de casamento da personagem brilhantemente interpretada por Kirsten Dunst - que já havia mostrado o seu talento no papel de uma figura depressiva em "Virgens Suicidas", o filme da Coppola filha. As relações sociais hipócritas na casa de campo onde comemora-se as bodas lembram "Assasinato em Gosford Park", mais pela locação do que pelo tema, claro. Mas parece que a grande influência foi mesmo o também dinamarquês "Festa de Família", que eu não vi, mas que foi citado por Janot e Rubens Ewald em suas críticas. A partir da segunda parte, "Melancolia" ganha um aspecto diferente. Justine, ainda depressiva, vai viver com a irmã e o cunhado em sua casa de campo, enquanto estes esperam ansiosamente a passagem do planeta "Melancolia", que a muito tempo se escondia atrás do sol e que surge na rota da Terra, despertando medo e curiosidade nos personagens.

Os simbolismos de Lars Von Trier são confusos, mas fica claro que a medida que o planeta se aproxima da Terra Justine ganha mais força e coragem, ao passo que sua irmã se desespera com a possiblidade de um choque e a morte de toda a população terrestre. Fica claro que quem possui mais vontade de viver fica mais propícia ao sentimento de terror diante de uma morte iminente: Claire ama o marido e seu filho pequeno, enquanto Justine, dado seu estado de melancolia, não parece ter nada a perder com a destruição do mundo que vive. Não me considero conhecedor de cinema o suficiente para discutir os outros símbolos propostos pelo diretor, como a cena em que cavalos se recusam a cruzar uma ponte ou a nudez (desnecessária?) de Justine sob a luz do novo planeta (visualmente bela, mas estranha), mas acredito que a proposta de Trier talvez seja a de confundir e instigar, e não a de oferecer uma conclusão para um filme tão interessante, denso e, a julgar pelo seu título, previsivelmente melancólico.

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