Beleza Americana


Poucos filmes se aventuram em mostrar o "lado obscuro" do sonho americano, embora essa pareça ser a fórmula certa para um filme estadunidense emplacar em festivais europeus e ganhar o gosto de um público mais acostumado com um cinema realista e por vezes cínico. Neste ano assisti "Melancolia" nos cinemas, que é certamente o trabalho (dos que tive contato) que mais se aprofunda nesta temática de negação dos valores da cultura capitalista e tradicionalmente ambiciosa dos norte-americanos - o filme é dinamarquês, mas trata-se de uma obra essencialmente voltada para os valores universais da elite ocidental. Nesta lista de filmes, eu também incluiria "Interiores", "Hannah e suas Irmãs" e "A Outra" de Woody Allen, "Virgens Suicidas", da Coppola, além do canadense "O Declínio do Império Americano". Como não comentei nenhum desses anteriormente, não pude deixar de escrever no blog sobre "Beleza Americana", que certamente ocupa um lugar neste rol de produções da contra-cultura cinematográfica.
A premissa do filme é basicamente a de revelar núcleos familiares absolutamente infelizes dentro de uma rua aparentemente bela e tranquila dos EUA. Tudo vai mal quando se tem tudo aquilo que se pode comprar e pouco daquilo que é essencial. O personagem principal, interpretado por Kevin Spacey, é infeliz no casamento, na vida profissional, no relacionamento com sua filha, mas enxerga certo prazer e esperança na vida quando redescobre a rebeldia e liberdade que tivera na adolescência, tudo isto inspirado pela paixão por uma amiga da filha e pelo seu vizinho usuário de drogas. A falta de satisfação afetuosa e sexual com a esposa, faz o personagem de Kevin criar fantasias com Jane (a amiga da filha) que possibilitam todo o simbolismo do filme: marcante tanto esteticamente quanto no que as "viagens" representam para o contexto da obra.
É interessante que para qualquer outro adolescente, Jane é só uma menina comum, mas para o seu admirador a garota é uma fuga, assim como os cigarros de maconha, o emprego na lanchonete de fast-food e o seu carro esporte. Longe da degradação que possa parecer, a súbita mudança de vida do infeliz protagonista é menos uma tentativa de auto-realização pelo caminho mais improvável do que um absoluto cinismo e desapego que um homem da elite norte-americana pode se ver subitamente adepto, tudo isto devido a sua descrença no modelo que antes viveu passivamente. Longe de passar uma mensagem pessimista, "Beleza Americana", ainda que um filme melancólico, ressalta a existência de certa beleza na vida que a torna uma experiência digna de se... viver - mesmo que seja uma vida completamente idiota.

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