A Pele que Habito
Escrever sobre o novo filme de Almodóvar é uma tarefa difícil. "A Pele que Habito" tem um roteiro tão surpreendente que qualquer comentário infeliz pode estragar a experiência de descobrir as suas surpresas. O diretor espanhol fugiu pela primeira vez da premissa de quase todos os seus filmes: melodramas bem coloridos que exploram a diversidade sexual e os dramas familiares em núcleos quase exclusivamente compostos por mulheres solteiras. Na verdade ele não escapou tanto assim ao seu tema, a confusão entre sexos está lá e o drama quase televisivo de tão apelativo também, embora tudo isto esteja encoberto por uma sombria e macabra história.
É estranho acompanhar o desenrolar da trama que tem muito de Mary Shelley na sua concepção, principalmente quando se compara o personagem de Banderas a um Victor Frankenstein às avessas, absolutamente encantado por sua obra. Tão encantado que parece até mesmo ignorar o contexto de sua criação, que nada mais é do que um episódio sádico quase tarantinesco, fruto da vingança e do oportunismo do imoral Dr. Legard (heterosexual, até onde sabíamos). O desenrolar da trama se faz através de flashbacks tão minuciosamente montados que fica difícil aceitar que o diretor ainda não considera aquele momento como o certo para nos revelar o que queremos saber: mas afinal, o que é que está acontecendo?
A ideia do humor negro é tão aplicada ao ponto de incomodar, de ser constrangedora, como deveria ser quando se faz piada com vaginas, vibradores e sexo anal. A baixaria clássica dos filmes do diretor, que pode ser simplesmente uma marca do seu cinema autoral (e de fato é) permite que haja cenas de sexo praticamente a cada 15 minutos da película, algumas delas representando estupros muito bem interpretados. Criativo, artístico, dramático, sensual, macabro. Tudo isto definiria com clareza o novo filme de Almodóvar, que, se não criou sua obra-prima, está cada vez mais consolidando sua posição de melhor diretor da atualidade.



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