Metropolis


"Metropolis", filme mudo de 1927, é considerado o grande precursor da ficção científica no cinema e uma das mais influentes produções do gênero. É difícil pensar em um livro ou filme posterior a esta obra que não carregue influências das muitas cenas marcantes ou das concepções futuristas expostas tanto no roteiro quanto no visual deste ícone do expressionismo alemão. A julgar pelas cenas iniciais, "Metropolis" já demonstra sua crítica afiada à sociedade industrial dos primeiros anos do século XXI, sendo que, olhando com cuidado, o filme se mostra um prelúdio daquilo que o britânico Charles Chaplin faria daí a alguns anos com "Tempos Modernos": demonstrar através de imagens bastante simbólicas a exploração do trabalhador e sua sujeição às maquinas.

Foi sem dúvidas com essas imagens que o filme mais me impressionou, principalmente na "troca da guarda" entre os operários que terminam seu turno de 10 horas e os que estão apenas começando essa árdua tarefa. Ambos os grupos caminham da mesma forma desmotivada (inclusive os que chegaram "descansados" para o trabalho) em passos lentos, quase uma marcha - o que me lembrou as crianças do filme de Alan Parker ao som de "Another Brick in The Wall parte II", clássico do Pink Floyd. Chegando ao ambiente de trabalho (um sub-solo bastante opressor), os trabalhadores assumem as suas máquinas, escravos do tempo e da própria produção - um dos mecanismos operados lembra um relógio, referência genial ao pragmatismo do tempo na concepção do taylorismo.

A partir daí, o ambiente fabril é deixado de lado para que seja apresentada a história de Freder, filho do empresário autocrata e "mestre" de Metrópolis, que descobre a exploração comandada pelo pai nos sub-solos da cidade e decide realizar algo a fim de salvar a vida da massa explorada. O filho questiona ao pai sobre a situação dos operários e faz a ele uma pergunta que se torna um dos grandes momentos da película: "nunca pensou que um dia eles podem se rebelar?". De fato existe uma conspiração dentro do ambiente de trabalho no subterrâneo de Metrópolis e Freder descobre uma espécie de seita comandada por Maria, uma bela dama que prega a vinda de um "mediador", que irá "conciliar a cabeça e as mãos através do coração". Ao mesmo tempo em que tudo isso acontece, o pai de Freder procura o inventor Rotwang, criador de uma humanóide (clone de Maria) que será usada pelo mestre de Metrópolis para incitar um motim ludista entre os operários - o que legitimaria assim uma intervenção violenta por parte do Mestre.

Assim o filme alcança o seu ápice e tudo termina (calma, não vou contar o fim) com uma aparente contradição na atitude do mediador, patrão e operários, de modo que a meu ver ficou difícil compreender a real mensagem final do diretor Fritz Lang e de sua roteirista. Os operários, ao quebrarem as máquinas, descobrem com as consequências drásticas que destruíram o que lhe proporcionava o básico para a sobrevivência, a saber luz elétrica e água canalizada. Mas e então? A revolta operária não fazia sentido enfim? O que os trabalhadores explorados afinal conquistaram? Deixando de lado esse juízo de valor sobre "Metropolis", fica claro em 148 minutos de filme que a obra se trata de um épico muito a frente de seu tempo, como deveria ser uma ficção científica. O visual dos prédios pode ainda não ter se realizado por completo, mas o trânsito da cidade e os metrôs suspensos são pura realidade atualmente. Ainda em 1982 tal advento da tecnologia não havia se manifestado com tanta clareza e Ridley Scott produziu um cenário não tão distante de "Metropolis" em seu "Blade Runner". Embora magnífico, não é no visual que a obra-prima de Fritz Lang alcança sua maestria, mas sim na concepção de mundo industrializado, totalitário e alienante. É assustador quando a ficção científica profetiza não só o advento da tecnologia, mas as tragédias nas relações sociais.

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