Amores Brutos


Quando assisti ao filme "Biutiful", do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, já percebi logo de cara o potencial que o diretor possui para fazer um cinema realista. A atuação de Javier Bardem e a própria temática da história contribuem para a criação de um clima tenso e pesado, tudo isto envolto por uma proposta realista e fantástica, dois termos que não são contraditórios na literatura e, portanto, também não o podem ser no cinema.

Em "Amores Brutos", filme de estreia de Iñárritu, minha percepção foi quase a mesma, a não ser pelo realismo ainda mais forte nas cenas de morte e de lutas entre cães e pela brilhante montagem de todo o roteiro, que é longo e seria relativamente simples se não fosse pelo paralelismo entre as três histórias narradas, em uma estrutura semelhante a uma novela (especialidade dos mexicanos).
Não existe nada em comum entre os protagonistas a não ser o fato de que Octavio (jovem que participa de rixas entre cães) se envolve em um acidente de carro com a famosa modelo Valeria, sendo o fato testemunhado por Chivo, uma espécie de mendigo e assassino de aluguel.
A partir deste incidente, a narrativa se concentra na história de cada um dos personagens, que amam cada um a sua maneira (bastante peculiar) e que vivem uma vida suficientemente interessante para ser contada em um filme com uma quantidade enorme de sequências de cachorros mortos ou passando por mau momentos. Isto chega a incomodar em um certo ponto, sobretudo para os que não são grandes fãs de ver vira-latas agonizando ou brigando entre si, mas, se consideramos que o foco do diretor está na realidade das cenas exibidas, os cachorros de "Amores Brutos" talvez sejam de fato o marco do filme.

Tanto é que uma das cenas mais interessantes, pelo menos a que mais me chamou a atenção entre todas elas, é a que Valeria e seu namorado buscam a todo momento libertar o seu cãozinho que acidentalmente foi parar embaixo do assoalho do apartamento. Dá para dizer que o fato do animal ter parado lá é a razão principal de todas as brigas do casal, mesmo que indiretamente, e o barulho do seu rangido por baixo do chão durante as madrugadas soa como uma espécie de alerta a consciência de ambos, que ainda pareciam inseguros com aquela relação (a princípio adúltera). É neste sentido que "Amores Brutos" carrega um pouco de fantasia, muito além de uma câmera inconvenientemente realista e as cenas de cachorros se matando.

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