Birdman
Este é o filme mais inteligente do Oscar, ou pelo menos o único que se propõe a cuspir na cara de Hollywood e dizer: os blockbusters que vocês estão produzindo são lixo e corrompem o cinema. "Birdman" usa da metalinguagem para falar da sétima arte, a exemplo de "Crepúsculo dos Deuses", por exemplo. É um filme pesado, reflexivo, enigmático, e bastante experimental. Michael Keaton (no papel de sua carreira, acredito) interpreta um ator decadente que vive à sombra do personagem que viveu no passado e o fez lucrar bilhões de dólares: "O Homem Pássaro". A ficção do roteiro coincide com a história do próprio Keaton, que interpretou o "Batman" em 1989 e depois não atuou em nada tão relevante quanto o filme de Tim Burton. Essa semelhança entre a biografia do ator e seu personagem nos faz lembrar outra vez de "Crepúsculo dos Deuses", quando Gloria Swanson fez coisa bastante parecida, o que já comentamos aqui no blog em outra ocasião.
O grande dilema de Riggan Thomson, o personagem de Keaton, é livrar-se do estigma de "Homem Pássaro" e obter sucesso em sua peça de teatro em pré-estreia na Broadway, mas poucos além do diretor acreditam na sua capacidade. Nem mesmo o alter-ego de Riggan, o "Birdman", é capaz de injetar-lhe algum ânimo, alertando-o de que o retorno ao sucesso só seria possível se aceitasse novamente encarnar o antigo super-herói. Os momentos em que o protagonista conversa com o homem pássaro são repletos de humor negro e alfinetadas ao "cinemão" norte-americano, com referências aos Vingadores e Robert Downey Jr, por exemplo. Destaque para o personagem de Edward Norton, que por sinal está em dois dos oito filmes indicados ao Oscar de melhor filme, cujo papel na trama não é outro senão o de declinar ainda mais a auto-estima de Riggan, ainda que seja o ator ideal para estrelar sua peça teatral.
O diretor de "Birdman", o mexicano Iñárritu, optou por filmar a obra de maneira bastante original, criando longos planos sequências que quase dão a sensação de que não existem cortes no filme. É fantástico assistir a uma obra filmada assim. Como Alfred Hitchcock fez em "Festim Diabólico", por exemplo, Iñárritu utiliza os cortes necessários através de tomadas em ambientes escuros, criando a ilusão da ausência de interrupções. Impressionante. O grande momento de "Birdman" é a sequência em que Riggan escapa dos bastidores de sua peça para fumar um cigarro e acaba ficando preso do lado de fora, apenas de cueca. Ele então dá a volta no quarteirão, passando pela Times Square lotada, e entra em cena pela porta da frente do teatro, improvisando o final de sua peça. O plano longo dá a esta cena um realismo maravilhoso, típico do diretor. O improviso de Riggan é tão bem realizado por Keaton que este momento do filme merece ser revisto muitas e muitas vezes. Como o próprio protagonista diz: "pareço interpretar uma versão decadente de mim mesmo". Talvez Michael Keaton esteja fazendo exatamente isso em "Birdman". Mas ele faz de uma maneira primorosa.



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