Sniper Americano



O novo filme de Clint Eastwood é um retorno do diretor aos filmes de guerra, mas desta vez ambientado no Iraque, pós 11 de setembro. A princípio, pode parecer ao espectador que "Sniper Americano" é um filme propagandista, com o intuito de recrutar almas para o exército norte-americano. A suspeita ganha ainda mais força justo agora, em 2015, quando Barack Obama solicita autorização ao Congresso para envio de novas tropas no combate ao Islã. Essa ideia, no entanto, desvanece no espectador à medida que o filme se desenvolve, e é até mesmo aceitável classificar a obra de Eastwood como um "anti-guerra" à moda do diretor - republicano e amante das armas de fogo. 

Aos 85 anos e com muita experiência fazendo cinema (o diretor tem quatro estatuetas do Oscar enfeitando sua estante), Clint Eastwood criou um filme empolgante e que, a exemplo de "Guerra ao Terror", de Kathryn Bigelow, transmite a mensagem de que os veteranos de guerra norte-americanos são claramente marcados por sequelas que afetam sua vida pessoal quando do retorno para o país natal. A atuação de Bradley Cooper, que, justiça seja feita, revelou-se nos últimos dois ou três anos um dos maiores atores dos Estados Unidos, faz com que o protagonista seja de fato uma força que atrai o espectador para a obra, mesmo quando a história já não é tão interessante quanto parecia nos minutos iniciais. Se refletirmos um pouco, o fio que conduz o roteiro é bem tênue: nada mais nada menos do que um embate entre dois atiradores de elite "mestres" em seu ofício: um ianque e outro árabe. Mas é claro que há mais do que isso no filme, e por isso é interessante analisar nos detalhes e nos diálogos o que o diretor quer nos dizer com sua obra.

Fora a questão do drama físico e psicológico com que os soldados veteranos são obrigados a conviver quando deixam o campo de batalha, além da representação da morte em vários momentos do filme (como é comum em uma obra sobre guerra), nos espanta a maneira evasiva como a origem e propósito do conflito no Iraque são tratados em "Sniper Americano". Talvez essa omissão do diretor não seja apenas uma escolha política, mas também a maneira mais sutil de Clint dizer ao espectador que essa guerra não faz sentido nenhum. O protagonista enxerga um sentido maior em seu trabalho, mas ele próprio não sabe explicar isso à sua esposa quando questionado da razão em ir para a guerra. Dez pontos para quem compreendeu o esforço de tantos soldados por batalhas tão vazias de sentido. Se "Sniper Americano" despertou-lhe algum sentimento pró-guerra, sugiro "Nascido para Matar", de Stanley Kubrick - uma obra com temática semelhante, mas certamente mais incisiva. O filme de Clint Eastwood não é, no entanto, nem um pouco descartável. Pelo contrário, é o seu melhor filme desde "Gran Torino".

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