Whiplash
A história de um jovem baterista, que deseja tornar-se um dos melhores do mundo no instrumento, já é por si só tema típico de um filme de "Sessão da Tarde". "Whiplash" não passa disso, mas não nos surpreende que a Academia, vez ou outra, dê tanto crédito à obras que não mereciam mais do que um "razoável" pela crítica. É um festival de clichês, mascarados por uma competente trilha de jazz e boas atuações dos protagonistas, interpretados por Miles Teller e J.K Simmons - este último melhor que o primeiro. O grande erro do filme é nos contar uma história extremamente inverossímil, com uma soberba por parte do roteiro, que sugere a todo momento que músicos de orquestra são superiores e mais técnicos do que os bateristas de rock'n'roll. Como estudante de bateria (embora relaxado), identifiquei-me com alguns aspectos dos treinos de Neiman, o protagonista, e é bastante empolgante ver pela primeira vez a bateria sendo protagonista em um filme sobre música. Pena que não tenha saído legal.
Neiman estuda em uma das mais importantes escolas de música de Nova York, e é convidado por Terrence Fletcher, professor do conservatório, para integrar o que parece ser o conjunto mais renomado da escola, formado pelos melhores músicos e treinados pelo exigente Fletcher. O professor não é apenas um extravagante, mas sim um sujeito que não possui nenhuma didática com os alunos, atuando de forma preconceituosa, assediando moralmente os músicos e despejando a sua falta de ética nos estudantes de maneira quase psicótica. Ele chega ao ponto de dar tapas na cara de Neiman e lançar contra a parede um bumbo. Surreal. É sério que o conservatório mais reconhecido de Nova York permite esse tipo de conduta dentro de sala de aula? Querem que acreditemos nisso? Não, a gente não acredita.
Outro ponto bastante constrangedor são os momentos de entrega do jovem ao instrumento. É claro que todo músico de sucesso pegou pesado nos treinos, mas há bastante exagero na maneira como as mãos de Neiman sangram enquanto ele treina os rudimentos da bateria. Nunca vi na vida o relato de alguém que tenha machucado as mãos a este ponto e o que poderia ser uma metáfora não é tão bem aproveitado, de modo que o sangue, que simboliza a entrega do jovem ao instrumento, torna-se banal e excessivo. Isto ainda poderia ser suportado se não houvesse uma cena em que Neiman, atrasado para um concerto, acelera o carro e distrai-se na direção, colidindo com uma carreta. Parece piada, mas ele sai do carro capotado, ensanguentado, e continua caminhando para o local do show, e apresenta-se todo machucado. O professor irresponsável não evita que ele suba ao palco e o show prossegue. Não há realismo nenhum na cena.
"Whiplash" é um grande equívoco e só tem valor se considerado um filme de entretenimento sem grandes pretensões. Não é um filme de academia, como foi "Amadeus"ou "Ray", por exemplo, histórias de grandes músicos, mas com teor biográfico. Aliás a maneira como o ensino da música é tratado em "Whiplash" só seria perdoado se a história fosse baseada na vida de algum baterista que de fato existiu, e aí poderíamos acreditar que ele tenha se sujeitado aos métodos sádicos de ensino de seu professor. Mas o pouco realismo na relação entre mestre e aluno enfraquece a obra, ainda que o roteirista tenha tentado se justificar através de uma fala de Fletcher. Ele cita o suposto caso do saxofonista Charlie Parker, que precisou de um prato arremessado em sua direção para dar-se conta que precisava melhorar - até se tornar um dos maiores músicos da história do jazz. Acontece que bons bateristas não se formam assim e Neiman, embora virtuoso, é muito mais transpiração do que inspiração, parafraseando Thomas Edison. Só que talento na música não é como na ciência e falta à Neiman na história o que é o ápice na vida de um bom baterista: a criação. A não ser pelo fim, ele não produz nada, mas apenas reproduz maquinalmente as partituras ensaiadas com a banda e o professor louco. O solo de bateria do final é o despertar da criatividade no músico protagonista e talvez o melhor momento do filme, mas acontece tardiamente na história. Afinal, quem foi Neiman? Ele consagrou-se no jazz ou foi tocar em um banda de rock? Faltaram respostas. "Whiplash" não dá ao espectador nada além de alguns minutos de boas músicas e rudimentos. É, até agora, o mais fraco do Oscar.



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