Bonequinha de Luxo
Gosto sempre de escrever sobre um filme logo que termino de vê-lo. Se eu tivesse feito isso com "Bonequinha de Luxo" na primeira vez que o assisti, talvez em 2010, nem imagino o que falaria da obra, provavelmente só elogios. Hoje, cinco anos depois, revendo o filme, encaro-o com um pouco mais de criticismo. Se não fosse por Audrey Hepburn, por Manhattan e, é claro, pela Tiffany, a história seria apenas uma biografia rasa de uma acompanhante de luxo de Nova York, que abandona sua família caipira para viver de forma desregrada na cidade que nunca dorme.
Neste ponto, há um pouco de Gatsby na personagem de Hepburn e não seria surpresa se entre os personagens que passam por seu apartamento não estivesse entre eles um escritor boa vida, como Fitzgerald, mas também como Paul, que de fato entra na vida da protagonista e rapidamente se apaixona por ela. Aliás, se pensarmos que Holly, a personagem de Hepburn, é pobre e busca ascensão social através do casamento com homens ricos, não há de toda forma muita esperança que o filme possua um final feliz.
O pecado de "Bonequinha de Luxo" é pecar pelo excesso, quando poderia ser brilhante apenas com a atuação sublime de sua protagonista, sua trilha sonora e algumas sutilezas do roteiro que o transformaram em uma obra cult: o gato sem nome, o apartamento bagunçado, o café da manhã em frente a vitrine da Tiffany e um passeio despretensioso pelas ruas de Manhattan, que vai despertar no casal desta comédia romântica o amor que sentem um pelo outro, terminando na cama, mas acordando separados. É um filme sobre o desapego, mas também sobre o dilema entre a prosperidade financeira e a felicidade da alma. Paul só precisa de alguns minutos no apartamento da vizinha pra entender que a ama. Ela, por outro lado, só se dá conta do amor que a cerca quando esgota todas as outras possibilidades através de técnicas, digamos, pouco dignas para uma dama tão cheia de classe quanto ela. Uma forte chuva, um gato ensopado e um beijo caloroso fazem desse filme memorável, mesmo que um pouco mais longo do que deveria ser.



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