O Bebê de Rosemary
Este é o melhor trabalho de Roman Polanski e muito provavelmente um dos mais eficientes filmes de terror do século XX. Lançado em 1968, é também curiosamente o primeiro filme relevante da obra cinematográfica do diretor franco-polonês, embora em 1966 Polanski tenha recebido o Urso de Ouro do Festival de Berlim por um filme obscuro que é mais uma obra cult do que um dos seus clássicos mais tardios, como "Chinatown" (1974) e "O Pianista" (2002), este último reconhecido pela crítica como sua obra-prima. "O Bebê de Rosemary" é parte de uma trilogia do diretor, sem conexão com os outros dois títulos - "Repulsa ao Sexo" e "O Inquilino" - a não ser pela presença da paranoia, do suspense e o fato da história, como as outras duas, desenvolver-se dentro de um apartamento.
O apartamento que, no filme, Rosemary (Mia Farrow) e seu marido escolhem como novo lar situa-se no célebre Edifício Dakota, uma construção imponente do século XIX situada no Upper West Side de Manhattan. O prédio existe de verdade e hoje atrai uma legião de turistas para sua entrada principal, a maioria deles menos motivado pelo filme do que pelo fato de ter sido ali o último lar de John Lennon e o local onde o ex-beatle morreu assassinado, em dezembro de 1980. A primeira tomada do filme, por acaso, é uma vista aérea do prédio, para que depois o diretor nos apresente o casal protagonista, adentrando aquele local tão cheio de prospectos negativos, decididamente ignorados por eles.
O que faz do filme assustador desde os seus primeiros minutos são as sugestões, tão cirurgicamente encaixadas diante de nossos olhos, de que algo vai dar errado para Rosemary e seu marido. E não há nada que nos dê mais certeza que isso quando, apenas alguns dias depois da mudança para o prédio, os dois casualmente descobrem sua vizinha estirada na calçada após um suposto suicídio. Um casal de idosos vizinhos que prontamente torna-se seus amigos são ao mesmo tempo simpáticos e onipresentes em sua vida, o que irrita Rosemary, mas não parece desagradar a seu marido que, aliás, alcança cada vez mais progresso em sua vida profissional de maneira bastante suspeita. A gravidez de Rosemary é o ponto de partida para que a mera sugestão dê lugar à certeza do espectador do horror que assiste.
É difícil acreditar que uma história tão perversa, improvável, mas paradoxalmente realista possa se desenvolver em um ambiente tão charmoso e aparentemente calmo em Manhattan. Mais difícil acreditar ainda que Roman Polanski possa ter transformado uma ideia tão comum em uma obra de arte, pela sutileza com que trata o tema, sem escancarar demais o seu propósito e dos personagens. Os apartamentos carregam esse mistério que transborda em "O Bebê de Rosemary" e algumas pessoas carregam a maldade, nem sempre exposta mas, pelo contrário, escondida atrás de uma porta - disfarçada pela cordialidade de um casal de vizinhos.



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