Que horas ela volta?



A exemplo de "A Criada", filme chileno de 2009, "Que horas ela volta?" tem como tema principal o trabalho de uma empregada doméstica em uma família brasileira de classe média alta. Ambos os filmes focam na maneira como as empregadas abrem mão de grande parcela de suas vidas pessoais em prol da família a que prestam serviço, pessoas com a qual convivem, a quem amam e por quem são tratadas com considerável amabilidade, a despeito de seu pouco reconhecimento. O grande fracasso dessa espécie de versão brasileira do filme chileno - e esta comparação na verdade soa um pouco injusta, já que é baseado em roteiro original - é o fato de "Que horas ela volta?" antagonizar alguns personagens chaves da história, como a patroa e empregada, o que enfraquece o paternalismo que o público mais atento poderia enxergar na relação em que a empregada é "quase da família", como Dona Bárbara, a vilã, afirma.

Embora haja muitas sacadas interessantes no roteiro, como as camisas de segunda mão usadas por Val, a personagem de Regina Casé, ou ainda o episódio com as xícaras que ela presenteia Bárbara, a presença desta última personagem torna-se um incômodo no filme, não só pela sua má atuação - o que se repete com quase todos os outros atores, inclusive Lourenço Mutarelli, em uma aparição longa e extremamente sem sentido - mas principalmente pela maneira caricata com a qual Bárbara se relaciona com Val e sua filha, convidada da casa por uns dias. O novelismo é constrangedor e, à medida que o filme avança, temos a sensação de testemunhar um bom roteiro sendo desperdiçado. O mote, que dá vida ao filme, é a presença da filha nordestina de Val na casa dos patrões de sua mãe, para que possa realizar o vestibular da FUVEST. A garota, que poderia comportar-se de forma submissa e grata à família, quer ser na realidade recebida como uma convidada e se incomoda com a maneira como a mãe abre mão de sua autonomia para servir aos patrões. O resultado é que Bárbara, dona da casa, passa a detestar a convidada, ao passo que seu marido pateticamente a ama, fato lamentavelmente acrescentado no roteiro.

Se em um ponto "Que horas ela volta?" vai além de seu equivalente chileno, e isso dificilmente poderia ter sido evitado em um filme brasileiro de 2015, é quando aborda não apenas o parasitismo da classe média e o árduo trabalho doméstico de Val, mas também a maneira como a personagem busca construir possibilidades diferentes para o futuro de sua filha. Isso vai ao encontro da guinada social da classe baixa vivenciada no Brasil dos últimos doze anos. E, neste sentido, há um elemento político no filme. A filha da empregada passa no vestibular. A filha da empregada entra na piscina dos patrões. A própria empregada entra na piscina dos patrões. É natural que a ascensão social da camada mais pobre da população brasileira esteja presente em um filme tão atual, mas é também uma pena que este seja basicamente o ponto onde "Que horas ela volta?" quer chegar. Neste aspecto, a obra torna-se exemplar para evidenciar um dos grandes avanços da esquerda brasileira na última década, mas a direção faz isso de forma tão óbvia que este fenômeno não nos parece autêntico. Tudo o que antecede à cena final do filme parece um pretexto para uma derradeira mensagem, inevitavelmente política. Isso não me parece muito condizente com a sétima arte. 

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