Se meu apartamento falasse



A vida do personagem de Jack Lemmon neste filme de 1960 é a vida do típico cidadão metropolitano do século XXI, seja em Nova York ou São Paulo. Morar sozinho, comer comida instantânea, trabalhar atrás de uma mesa em um grande escritório onde todos fazem praticamente a mesma coisa. Se entediar com a TV. Ter poucos ou nenhum amigo. Baxter, o protagonista em "Se Meu Apartamento Falasse" é tudo isso. E sua angústia é cada vez mais contemporânea. Curiosamente, o fator que sustenta o roteiro envelheceu nos dias atuais, quando os motéis são cada vez mais comuns nas periferias, ou até no centro das grandes cidades. A invenção do motel como o "hotel dedicado ao sexo" arruinaria o roteiro do filme se fosse gravado hoje. Isto porque a premissa da obra é a de que Baxter, em troca de ascensão profissional, negocia com seus superiores a chave do seu apartamento para que pudessem levar suas amantes para lá em dias marcados. Isso diminui ainda mais a privacidade e a individualidade do protagonista, mas garante-lhe sucesso em seu trabalho, até que se apaixona.
É bastante interessante como a sugestão de que o apartamento é um local de sexo sem sentido possa ter sido tão naturalmente tratada em um ano ainda muito pouco liberal no cinema de Hollywood - em um período que veria muitos avanços na liberdade sexual, mas somente alguns anos depois. Impressionante também como Billy Wilder foi um diretor produtivo e Jack Lemmon um ator de primeira categoria - um dos melhores de sempre. "Se Meu apartamento Falasse" é um registro marcante do homem médio das grandes cidades, com a vida atarefada e a alma vazia. Mas o carisma de Lemmon e a personalidade de Baxter não demoram a trabalhar para que seu coração seja logo preenchido. Assim como o seu apartamento sempre esteve.

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