Corra!
Se existe um gênero que tem produzido bons filmes neste século é o terror. Com premissas criativas, novos bons atores e direções inovadoras, obras como "Corra!" ganham destaque em meio a tantos filmes repetidos de super-heróis ou as emotivas animações que dominam as salas de cinema mundo afora. "Corra!" conta a história de um jovem negro norte-americano que vai conhecer a família branca de sua namorada. Temendo ser vítima de preconceito, ele fica surpreso ao perceber que a família, contrariando as suas expectativas, o trata com respeito e cordialidade. Em pouco tempo, no entanto, ele percebe que há algo de estranho no vilarejo onde sua namorada vive, principalmente na maneira como os poucos negros que ali habitam se comportam em relação aos brancos. O mais interessante da obra é que o racismo e a perpetuação contemporânea da escravidão em sociedades eminentemente brancas, temas que norteiam o filme, são tratados a partir de metáforas inteligentes, como as que associam a caça ao caçador, bem como os momentos em que o protagonista, Chris, visualiza os personagens brancos através da lente de sua câmera, identificando ali seus potenciais predadores, já que sua figura é animalizada a todo momento pelos recém colegas preconceituosos. Há certa arrogância no roteiro, algo que não posso me alongar, para não correr o risco de antecipar a história, mas digamos que a ideia pretensiosa de que uma garota branca conquistaria qualquer jovem negro não deixa de conter em si própria certo racismo, mesmo que velado. Vocês perceberão isso conforme a história do filme se desenrola. Há algumas sacadas geniais, como o atropelamento do cervo e a maneira como o sogro do protagonista reage: "as vezes penso que a morte de um deles já é um começo". De um modo geral, "Corra!" é um filme inteligente, bem interpretado e ambientado. O roteiro também merece destaque, pela originalidade, mesmo que a história seja na realidade uma adaptação não creditada de "As Esposas de Stepford", filme que já comentei aqui no blog. Eu diria que este é o melhor filme de terror que assisti no ano de 2017, um pouco à frente do também ótimo "A Autópsia". Assisti a ambos no Palace, e muito provavelmente este foi o último filme que pude ver neste belo e tradicional cinema da cidade de Juiz de Fora. Por ser propriedade privada, ele deixará de existir, atendendo aos interesses do mercado, que não lucra com cinema. Na realidade, as pessoas não estão muito interessadas mesmo em ir a cinemas de rua. Na minha sessão havia apenas seis gatos pingados. Mas garanto que todos saíram da sala bem assustados.



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