Mãe Só Há Uma




"Mãe Só Há Uma" é um filme de 2016, dirigido por Anna Muylaert, mesma diretora de "Que Horas Ela Volta?", já comentado aqui no blog. O longa conta a história de Pierre, um jovem paulista de 17 anos que leva uma vida normal de adolescente até que descobre que não é filho biológico de sua mãe. A partir da descoberta, Pierre precisa conviver com as mudanças drásticas que a situação acarreta, somadas às mudanças de seu comportamento e seu psicológico, tudo isso em uma fase em que muitos jovens ainda não conhecem o próprio corpo e muito menos o mundo real que os cercam, mas desconfiam de muita coisa.  As cenas em que o protagonista anda de bicicleta ou toca com sua banda punk são representativas da rotina aparentemente tranquila que o jovem possuía até que sua vida muda de cabeça pra baixo. Digo "aparentemente" pois, ainda nestes momentos de relativa tranquilidade, é possível perceber que Pierre vive um drama existencial, descobrindo aos poucos sua sexualidade e sua identidade de gênero, fazendo suas experimentações dentro do banheiro fechado, sabendo que isso poderia chocar sua família. 

Quando passa a conviver com pessoas totalmente diferentes e com as quais não possui nenhum vínculo afetivo, Pierre parece tomar maior liberdade e coragem para se assumir, ou, para usar uma palavra melhor, para ser quem ele realmente é, como o próprio jovem fala em um dos seus diálogos. Os seus pais se chocam, mas ao mesmo tempo não querem perdê-lo. A cena em que Pierre vai com os pais comprar roupas é uma das cenas mais inteligentes e bonitas do cinema nacional, quando o garoto, de forma autêntica e corajosa, revela qual roupa quer usar. O seu pai, quando o leva ao boliche e, tonto pela cerveja, reclama que o filho não gosta de futebol, nem de boliche, nem de roupa de homem, poderia soar como um vilão, mas sua argumentação caminha no sentido de que está disposto a aceitar o filho da maneira como ele for, desde que ele possa ser seu filho. Isso é muito tocante, embora eu não acredite que a situação seja apenas de aceitação, mas também de respeito. E o respeito é muito bem representado na cena final, reflexo de toda a ingenuidade que uma criança possui, ingenuidade essa capaz de fazê-la demonstrar afeto de forma muito mais autêntica e natural do que Pierre tinha recebido até então pelos seus pais biológicos. E a maneira como o protagonista reage fecha com chave de ouro esse lindo filme brasileiro que conseguiu me fazer chorar em frente à TV, depois de muito tempo. 

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