Nebraska



Quando assisti "Nebraska", em 2014, eu já sabia que acabaria vendo o filme outra vez. Em primeiro lugar, pela bela história de amor entre pai e filho. Em segundo pela fotografia e, por último, pela atuação de Bruce Dern. Todos os bons road movies precisam de um motivo condutor para a viagem central do filme, não sendo raro que essa história seja um pouco fantasiosa, tal como em "Pequena Miss Sunshine" (2006) ou "Rain Man" (1988). Em "Nebraska" não é diferente, já que acompanhamos basicamente a saga de um idoso, junto ao seu paciente filho, em busca da retirada de um prêmio de 1 milhão de reais na remota cidade de Lincoln, no estado norte-americano homônimo ao filme. Acontece que o velhinho protagonista, interpretado por Bruce Dern, está na realidade sendo iludido por um panfleto puro marketing de uma empresa, desses feitos para nos enganar. Nada tira de sua mente, no entanto, que é o detentor do prêmio e, quando sua esposa o desencoraja a ir buscar o dinheiro, encontra no filho o parceiro para a viagem. Seu filho, em bela interpretação de Will Forte, não tem muito a perder na vida amorosa e profissional, percebendo na viagem uma oportunidade de se aproximar do pai, que pela saúde e aspecto físico já não possui mais uma longa vida pela frente.

A fotografia em preto e branco dá o tom melancólico do filme, acompanhado de uma também triste trilha sonora. O roteiro, entretanto, não é tão pra baixo quanto parece e o filme chega até a se tornar divertido em muitos dos momentos cômicos vividos pelo pai e filho em sua longa viagem. Como há um grande caminho a ser percorrido, os protagonistas decidem passar o fim de semana na cidade onde Woody Grant, o suposto vencedor da loteria, nasceu. Lá, o fllho de Woody acaba descobrindo muitos episódios da vida do pai, que nunca lhe foram contados por ser o velhinho figura fechada e carrancuda. Nestes momentos, é difícil não se lembrar de "Morangos Silvestres" (1957), de Ingmar Bergman, embora no caso de "Nebraska" as lembranças do protagonista e suas emoções rememoradas sejam mais superficiais. De qualquer forma, a presença dos dois na cidade e as consequências do burburinho gerado por Woody são o fio central que conduz boa parte da narrativa, de modo que o filme se torna durante um bom tempo a história de um homem lidando com o fato de, subitamente, ter sido obrigado a se encontrar com o seu passado, amigos, antigos amores e sua complicada família. 

A firmeza na atuação de Bruce Dern, que à época já tinha quase oitenta anos, é impressionante. A maneira como olha, como anda, o jeito de falar...tudo isso acrescenta um realismo admirável ao seu personagem. Não custa lembrar que estamos falando de um dos grandes atores da história do cinema interpretando um homem que vive fase semelhante de sua própria vida, lidando com os dilemas do envelhecimento: cruel, inevitável e, muitas vezes, surpreendentemente rápido. "Nebraska" é um filme muito sensível ao tratar do sonho ingênuo de uma pessoa idosa, que encontra em seu filho a disposição por satisfazer sua fantasia. Pelo que sugere o roteiro, o filho age com paciência e carinho sem nunca ter recebido atitudes semelhantes do pai. Os momentos mais tristes da história não são aqueles artificialmente emotivos, mas sim os que nos conseguem provar com mais exatidão o significado de amar alguém. Este não é um filme triste, mas sim uma obra que nos faz acreditar que existem formas relativamente simples de driblar a ganância e a falta de empatia que existe no mundo. 

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