Prelúdio para Matar
Este inteligente filme de Dario Argento, produzido em 1975, é uma obra primorosa. Digo inteligente não exatamente pelo roteiro, que francamente deixa a desejar se pensarmos que hoje os filmes de suspense precisam ser muito mais detalhados para agradar aos públicos cada vez mais exigentes. A inteligência da obra reside na maneira como é filmada, na forma como explora a cidade cenário - uma Roma noturna, deserta, quase como um quadro de Edward Hopper. A história, que é basicamente um jogo de gato e rato entre assassino e investigador, se descortina bem lentamente, utilizando das levadas progressivas da banda italiana Goblin, parceira de Argento em seus filmes. O romance entre o protagonista, interpretado pelo magistral David Hemmings, e uma repórter investigativa faz com que a carga de terror constante na obra seja um pouco aliviada pela relação cômica entre os dois personagens. O suspense e a expectativa de descobrirmos a identidade do assassino - algo tão clichê em filmes do gênero - são combinados com uma autêntica forma de filmar, com planos criativos, largos, invasivos e uma fotografia muito bonita, que valoriza os cenários internos e externos. Gostei particularmente da cena em que o personagem principal toca piano sabendo que há um invasor dentro de sua casa. A maneira como a cena se desenvolve, utilizando a própria música tocada como trilha sonora, é reveladora de que menos é mais. As tomadas em que os personagens são colocados em primeiro plano, com o fundo totalmente preto, é um poderoso indicativo de que algo irá acontecer. Apesar de uma premissa que falha em explicar ao espectador de forma objetiva alguns pontos do roteiro, abrindo muitas brechas para sugestões, "Prelúdio para Matar" é certamente um testemunho do talento de um dos maiores diretores da história do cinema.



Comentários
Postar um comentário