Suspiria




"Suspiria", do cineasta italiano Dario Argento, é um filme de terror de 1977. Foi filmado em uma década em que as obras mais maduras do gênero já haviam sido lançadas - "O Exorcista" (1973) , "O Massacre da Serra Elétrica" (1974) e "Carrie" (1976) - alcançando recordes de bilheterias mundo afora e provando que terror era coisa séria no cinema. A produção italiana deve ter sido um grande desafio, tanto para o diretor quanto para os que aceitaram investir na sua realização, já que essa década de ouro se encerrava e a obra poderia tomar o status de algo tardio, pra não dizer ultrapassado. O filme conta a história de uma garota norte-americana, Susan, que sai de Nova York com destino ao interior da Alemanha, para estudar em uma conceituada academia de ballet. Chegando na academia, comandada por uma professora extremamente rígida, a jovem percebe que há algo de estranho no ar, já que na noite de sua chegada uma estudante foi brutalmente assassinada após ter sido expulsa da academia.

A morte desta estudante, por acaso, é presenciada por nós espectadores logo nos primeiros momentos do filme, como uma espécie de prólogo que os slasher movies da década de 1990 transformariam em uma fórmula mágica, muito utilizada até hoje nos filmes de terror: vemos uma personagem de participação muito breve no roteiro ser apresentada somente para ser morta alguns minutos depois, servindo de alerta para os que estão assistindo, preparando-os para o que poderá acontecer à protagonista se ela não souber se cuidar. Esta também é uma estratégia do diretor para sugerir aos espectadores que o assassinato está de alguma forma ligado à expulsão da jovem da academia de dança. E é justamente essa hipótese que dá liga à história, muito bem ambientada em uma escola que na realidade é também a moradia de boa parte das alunas. Uma mansão bem gótica, vermelha, com decoração muito excêntrica e rebuscada, lembrando o interior do palácio Quitandinha de Petrópolis ou ainda o hotel Overlook de Kubrick em "O Iluminado" (1980).

A curiosidade de Susan e os elementos sonoros que transformam a obra em algo assustador fazem da atmosfera da escola de dança algo memorável, muito por conta da trilha sonora que mescla toques de piano semelhantes ao tema de "O Bebê de Rosemary" (1968) e notas mais eletrônicas, antecipando um estilo que seria muito repetido nos filmes da década de 1980. A presença de alguns lugares comuns dos filmes do gênero também contribuem para gerar um clima de tensão, como se algo estivesse sempre para acontecer. É o caso do pianista cego e de um mordomo romeno assustador - um clichê que todos gostam desde a "Família Adams". Outro grande trunfo na construção do medo no filme é o fato do roteiro trazer elementos da psicologia para justificar a trama central, o que de certa forma dá mais cientificidade ao que está acontecendo, tornando a história mais real. Isso já havia sido feito por Polanski em "O Bebê de Rosemary", quando a protagonista consulta o seu amigo e ele lhe dá um livro muito sugestivo para ler.

Acredito que "Suspiria" tenha sido fonte de inspiração para praticamente todos os filmes de terror importantes das décadas seguintes, inclusive obras mais contemporâneas. A rigidez da professora de ballet, que obriga sua aluna a dançar mesmo ela se sentindo mal, me fez lembrar de "Cisne Negro" (2010), terror psicológico concentrado na obsessão de uma bailarina pela perfeição. Há um momento no filme de Argento que Susan, acuada em seu quarto, é surpreendida por uma luz que apaga. Ao contrário dos filmes que apostam em alguns segundos de escuridão para assustar o espectador, o diretor italiano nos presenteia com uma luz verde, semelhante à das câmeras noturnas, que nos torna possível acompanhar o que está acontecendo com a protagonista. Recurso semelhante foi usado trinta anos mais tarde em "Atividade Paranormal" (2007).

Há uma cena em "Suspiria" em que a personagem do prólogo, com medo do que está acontecendo do lado de fora do seu quarto, espia pela janela tentando ver algo na noite escura. Mais tarde, Susan repete esta cena, encontrando um morcego. Estes dois momentos definem nosso comportamento em relação aos filmes de terror: por mais medo que sentimos, vamos sempre nos aproximar da tela, levantar da poltrona, tapar os olhos e abrir os dedos, curiosos, para saber o que está acontecendo. Embora as trilhas sonoras, gritantes, sejam quase insuportáveis nos momentos de tensão, dificilmente abaixamos o volume. Ter essas sensações é o mínimo que um filme de horror pode nos proporcionar, e, neste caso, Argento vai muito além disso, construindo um espetáculo visual onírico, de caráter absolutamente artístico. "Suspiria" ocupa uma posição de honra entre os melhores filmes de terror da história do cinema. Cinco estrelas! 

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