O Poderoso Chefão
"O Poderoso Chefão", de 1972, é presença carimbada na lista de melhores filmes de quase todos os cinéfilos, frequentemente ocupando a primeira posição no gosto pessoal dos amantes da sétima arte. É uma daquelas raras unanimidades entre críticos e merece ser esmiuçado aqui no blog. Assisti ao filme pela primeira vez em 2009 e na época fiquei muito impressionado pela trama e pelas atuações do elenco, quase todo masculino. É claro que Marlon Brando foi certamente quem mais me marcou, até porque eu ainda não sabia quem era Brando e a importância que ele possuía para o cinema. Hoje tenho consciência que "The Godfather", nome original em inglês, não é apenas o grande filme da carreira de seu diretor, Francis Ford Coppola, como também um registro memorável dos melhores momentos de alguns dos maiores atores do cinema norte-americano, principalmente Robert Duvall, Marlon Brando e Al Pacino.
A trama começa na festa de casamento da filha de Don Vito Corleone (Marlon Brando), chefe de uma das cinco famílias que comandam todo o tipo de atividade criminosa em Nova York. O ano é 1946, pós segunda guerra mundial. O roteiro do filme é muito elaborado, de modo que a festa em família é oportunidade para que nos sejam apresentados os principais personagens da história, entre os mais importantes os filhos de Corleone e o fiel amigo Luca Brasi. Enquanto todos sorriem, dançam e comemoram na parte externa da festa, no interior da mansão Corleone os membros da família se reúnem em volta de Vito, que despacha alguns assuntos importantes, envolvendo basicamente troca de favores e apadrinhamento. Desde os minutos iniciais já podemos perceber que Don Corleone possui políticos, juízes e outras figuras importantes em seu bolso, muitos deles presentes na festa de casamento de sua filha. A discrepância entre o que acontece dentro e fora da festa é bastante metafórica, considerando a vida dupla criminosa que sustenta o luxo da celebração.
O início de "O Poderoso Chefão" é apressado, considerando que a obra tem quase três horas de duração. Muita coisa acontece, há muita informação. Isso prejudica um pouco a atuação de Brando, que brilha em um momento posterior. Depois que entendemos que existe um desconforto entre as famílias Corleone e os Tattaglia, o desenrolar da trama ganha mais cadência e o filme naturalmente fica melhor. A reunião entre Vito e Sollozzo, que inicialmente são os protagonistas da obra, é um dos momentos mais intensos e prazerosos. Para quem gosta de cinema, é um deleite. Marlon Brando é um verdadeiro gênio em sua interpretação durante os poucos minutos que negocia com Solozzo. É importante que saibamos que Brando foi o maior ator da história do cinema e que nesta cena ele alcança o seu maior momento no filme. É uma das cenas para abusar do botão "pause" e "voltar" do controle remoto. A caracterização de Vito com as bochechas inchadas e o cabelo envelhecido é inesquecível.
É curioso que possamos gostar tanto de um filme que conta a história de criminosos, pessoas sem escrúpulos, desonestas, que matam. Ora, vivemos em um país tão manchado pela corrupção e ainda conseguimos exaltar mafiosos? Esse questionamento é interessante, mas vale frisar que "O Poderoso Chefão" é a história de um conflito dentro do mundo do crime. Não é um conflito entre lei e ordem. É uma guerra do crime organizado. Sendo assim, é natural que o espectador simpatize com os Corleone, até porque a narrativa nos leva a crer que são eles quem estão corretos na história. E mesmo se não estivessem, como são eles os protagonistas somos impelidos a ter empatia com Vito e sua família. Daí a proliferação de camisas, bonecos e citações de "O Poderoso Chefão" pelo mundo afora. O filme ganhou a cultura popular, tanto no mundo cult quanto nerd, mas ainda permanece pouco assistido pelas novas gerações. Uma pena.
Os filhos de Vito são muito bem interpretados e caracterizados. Santino (James Caan), o mais velho, é impulsivo e passional. Fredo (John Cazale) é imaturo, despreparado, ingênuo. Tom Hagen (Robert Duvall), filho adotivo, é inteligente, conciliador, advogado e consigliere da família. Connie (Talia Shire) é a única filha mulher, também imatura, mimada e alheia aos negócios de seu pai. Por fim, Michael (Al Pacino) é o filho mais importante da trama, frio, decidido, veterano da segunda guerra mundial. Michael Corleone merece menção especial, porque é na realidade o protagonista de "O Poderoso Chefão", tanto no primeiro filme quanto nas sequências. É ele quem assume o papel de liderança da família, atuando em um momento decisivo do filme. Este momento é a cena do restaurante italiano, quando Michael executa o assassinato de seu maior rival, Sollozzo. Sobre essa cena, é melhor dizer o menos possível. Basta que saibam que este é um dos maiores acontecimentos da história do cinema, testemunho do talento indiscutível de Pacino, um dos maiores de sempre. Quando vejo essa cena, sinto um prazer inexplicável, penso que eu não seria a mesma pessoa se não tivesse assistido esse filme em 2009 e revisto esse momento muitas e muitas vezes desde então.
Após a cena do restaurante, Michael já é o novo Don. Em um certo momento, ele senta na poltrona do pai e já percebemos que está transformado. Brando só aparece novamente com destaque na reunião das famílias, em que propõe trégua ao seu maior inimigo. A partir daí, quem brilha é Al Pacino, que toma conta do filme e da trama. Brando é então desperdiçado. Ele passa o bastão ao seu sucessor não apenas na ficção, mas também no protagonismo do filme. Confesso que fico feliz com essa troca de guarda, porque Pacino está em um momento ímpar de sua carreira. Sua representação de Michael Corleone é um dos maiores marcos da história do cinema, registro de um artista que passa a viver totalmente dentro do seu personagem. Atuação em um nível de pureza raro, que só vi novamente nos trabalhos de artistas do calibre de Christian Bale, Matthew McConaughey e Daniel Day-Lewis.
A partir do momento que Michael assume o comando de sua família, a história passa a ser centrada na rivalidade com Barzini, chefe de outro grupo mafioso. Próximo ao desfecho do filme, Michael é convidado para ser padrinho do filho de sua irmã, o que já demonstra o crescimento de sua reputação entre os familiares. A cena do batismo, mesclada com o assassinato de seus inimigos, é representativa da ascensão de Michael como o padrinho que dá nome ao título original. Além disso, a cerimônia batismal representa também a dissimulada renúncia do protagonista ao diabo, ao passo que na vida real está assumindo por completo o papel de gângster. Em apenas um dia, o novo Don Corleone resolve todos os assuntos pendentes, demonstrando que leva sim os seus problemas para o lado pessoal, ao contrário do que afirma no início da história. No momento final, quando sua esposa (Diane Keaton) o questiona sobre os negócios, ele cinicamente nega que seja um assassino. Ela acredita e vai buscar um drink. Quando olha pra trás, a porta do escritório de Michael se fecha para ela. Inspirado no livro de Mario Puzo, "O Poderoso Chefão" é com certeza um dos filmes mais importantes da história do cinema.



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