Toy Story
Não costumo resenhar animações no blog, mas um fator sentimental me fez escrever sobre "Toy Story", de 1995. Eu era ainda muito pequeno quando o filme foi lançado no Brasil, mas me lembro perfeitamente da febre que os personagens Woody e Buzz foram para minha geração. Eu tive muitos bonecos da série, embora na década de 90 os brinquedos fossem limitados aos personagens principais, em versões pequenas e simples. Hoje existem alguns em tamanho real, feitos de pano, pra poucos comprarem, diga-se de passagem. Brinquedos são hoje artigo de luxo no Brasil, uma pena enorme, considerando que essa é a melhor coisa na vida de uma criança. A proliferação de bonecos vendidos por ambulantes é sintoma dos altos preços nos shoppings, o que cria um abismo entre a qualidade do brinquedo do pobre e do rico. Essa é uma das razões para o futebol ter tanto apreço por jovens moradores de periferia, afinal de contas tudo o que precisa para ser jogado é uma bola, que pode ser feita até de meia.
"Toy Story" é um marco no cinema de animação, não apenas pela sucesso comercial e pelas sequências que rendeu, mas por ter sido o primeiro de todos os longas metragens feito totalmente por computação gráfica. É o primogênito da Pixar, estúdio de animação digital responsável por inúmeros filmes em CG, que teve como maior acionista o Steve Jobs. A Pixar atua em parceria com a Disney e as duas juntas possuem força suficiente para emplacar qualquer animação que produzem, enchendo cinemas no mundo inteiro. Estamos falando de filmes que geram receitas superiores a 1 bilhão de reais! Fora o sucesso financeiro, as animações da Pixar criam personagens originais que em pouco tempo se integram a cultura popular, como o peixinho Nemo, os personagens de "Os Incríveis" e o velhinho de "Up". Bom, tudo isso começou em 1995, com "Toy Story".
A premissa do filme é a de que os brinquedos possuem vida própria e interagem entre si quando seus donos não estão por perto. O foco está no quarto de Andy, típica criança norte-americana (branca, rica, que mora em uma casa de dois andares, sem muros, com jardim, cachorro, irmã caçula). Aqui há uma curiosidade, irrelevante para a história: Andy aparentemente é órfão de pai. Entre os principais brinquedos de Andy estão um dinossauro rex verde, o Senhor Cabeça de Batata, um cachorro de mola, e o cowboy Woody, que é o líder do grupo. A liderança, no entanto, é ameaçada quando um novo brinquedo chega no quarto de Andy após o seu aniversário: um Buzz Lightyear, brinquedo astronauta, com laser e asa. Surge então uma rivalidade entre Woody e Buzz, o velho e o novo. Os demais brinquedos tomam partido a favor de Buzz, que os encanta. Andy também prefere o astronauta, deixando Woody de lado. É engraçado que isso ocorre de verdade com nossos brinquedos quando crianças. Ganhamos um novo e deixamos o outro esquecido.
A rivalidade entre os dois protagonistas chega ao limite quando ambos vão parar acidentalmente na casa do vizinho, uma criança bem agressiva e com talento para o hacking de bonecos. A partir daí a história se concentra na união de esforços entre Woody e Buzz para escaparem da casa do vizinho e voltarem para o quarto de Andy. O roteiro é bem simples, perfeito para crianças. Um destaque vai para a trilha sonora, que no Brasil fez muito sucesso com a tradução da canção "Amigo Estou Aqui", um hino saudosista para quem foi criança na década de 90. Assistindo o filme hoje, é possível perceber como a computação gráfica evoluiu e os traços dos personagens estão ficando cada vez mais rebuscados, embora "Toy Story" esteja longe de parecer datado. Outra observação: em 1995 não se preocupavam com representatividade no cinema. Uma criança negra, por exemplo, não vai encontrar ninguém parecido com ela no primeiro filme da franquia de Woody e Buzz. O cinema amadureceu desde então. Feita essa ressalva, "Toy Story" permanece um filme essencial para ser assistido por crianças e adultos, por resgatar uma fase única de nossa vida, em que a imaginação nos permitia viver um mundo inteiro dentro de nosso quarto.



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