Wall·E


Terminando uma série de resenhas das melhores animações do cinema, resolvi finalmente assistir "Wall·E", de 2008. Mais uma das grandes produções da Pixar, o filme fez bastante sucesso entre o público adulto, por contar uma história atípica pra uma animação. A história é uma distopia, termo que define situações imaginárias extremas, negativas. "Distopia" é o antônimo para "utopia", que significa basicamente "lugar ideal". Sendo assim, dá pra entender que um local distópico é um local que foge de qualquer condição agradável. São lugares ruins para se viver e são quase sempre cenários de ficções científicas. As distopias foram representadas no cinema principalmente em adaptações de obras literárias, tais como em "O Planeta dos Macacos" (1968), "Blade Runner" (1982), "Matrix" (1999), mas também em conteúdos originais, como "Mad Max" (1979) e o mais recente "Ela" (2013), que venceu o Oscar de melhor argumento em 2014.

A história é protagonizada por um robô (Wall·E), que vive na Terra como um catador e compactador de lixo. O nosso planeta está abandonado pelos humanos, que vivem em um cruzeiro espacial há 700 anos, aguardando a Terra voltar às condições normais e possíveis para que haja vida novamente em sua superfície. Como normalmente ocorre com as pessoas que vivem do trabalho com resíduos de qualquer espécie, Wall·E é um colecionador de tudo aquilo que encontra no lixo e que chama sua atenção, como isqueiros, sutiãs, patinhos, ursinhos, cubo mágico e principalmente fitas de vídeos com musicais dos anos 30. Interessante que a cena em que ele mexe em sua coleção particular me fez lembrar do documentário brasileiro "Lixo Extraordinário" (2010), em que Zumbi, catador de material reciclável, relata ter criado uma biblioteca de livros encontrados no lixo. Há uma cena particularmente bonita em "Wall·E", quando o robozinho, acompanhado de sua amiga barata, trabalha ao som de "La Vie En Rose", de Louis Armstrong. Momentos como esse ficam guardados pra sempre na mente de quem os assiste, e essa é uma das coisas mais legais do cinema.

A rotina de Wall·E sofre uma reviravolta quando ele encontra a muda de uma plantinha, que é logo capturada por uma sonda à procura de vida na Terra. O robô e a sonda, que se chama "Eva", ficam amigos, na verdade rola uma paixão, e os dois acabam indo parar na nave-cruzeiro cheia de humanos, onde boa parte da trama vai se desenrolar. Nessa parte da história, é muito divertido encontrar algumas referências cinematográficas, principalmente de "2001 - Uma Odisseia no Espaço", filme de 1968, dirigido por Stanley Kubrick. Há também brincadeiras com "Star Wars", não só pela configuração da nave mas também em cenas específicas, muito semelhantes ao primeiro filme da franquia. A tripulação do cruzeiro é basicamente formada por robôs e os passageiros são pessoas extremamente ociosas, obesas, inconscientes da vida que existe lá fora no espaço. A alienação dos humanos é cômica, já que passam o dia deitados, comendo e olhando para uma tela projetada em sua frente. Qualquer semelhança com 2017 é apenas coincidência.

É justamente a plantinha encontrada por Wall·E na Terra, uma sementinha pequena, que irá tornar possível aos humanos ter a esperança de retornar ao seu planeta. O roteiro não deixa muito claro como essa colonização seria possível, mas essa brecha é compensada na cena dos créditos, com uma animação que deve ter sido pouco percebida pelos espectadores, mas que é o ponto alto de todo filme, embora ironicamente esteja posicionada após o fim da história. Wall·E e Eva são os responsáveis pela nova gênese do planeta Terra, que estava perdido. Daí o nome da sonda ser uma referência bíblica, alusiva ao antigo testamento. Essa breve animação final, somada a uma bonita história de amor entre dois robôs com mais sentimento que muitos humanos por aí, fazem de "Wall·E" um filme necessário para despertar em nós a empatia que precisamos pra mudar o mundo. 

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