Dunkirk
Este é o sexto filme de Christopher Nolan que assisto no cinema. Deve ser o diretor que mais vi nas telonas até hoje, talvez empatado com Woody Allen. Sempre que Nolan lança um filme surge um movimento migratório de cinéfilos para as salas de cinema, por ser um diretor bem autoral, com uma história e filmografia de respeito (principalmente a trilogia do Batman (2005, 2008 e 2012), "A Origem" (2010) e "Amnésia" (2000), os dois últimos já comentados aqui no blog. Em "Dunkirk" (2017), o diretor londrino parte para um estilo até então inédito em sua carreira, que é a temática da guerra, mais especificamente a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
O filme conta três histórias de forma separada e em temporalidades diferentes, embora elas se encontrem em momento próximo ao desfecho do filme. O roteiro é baseado em uma evacuação real que ocorreu na costa francesa no ano de 1940, quando as forças armadas britânicas precisavam resgatar de volta pra casa centenas de milhares de soldados britânicos acuados pelos alemães. O transporte tinha que ser feito pelo canal da mancha, que era a maneira mais fácil de chegar até a Inglaterra. A tripartição do roteiro de "Dunkirk" opta por narrar a história dos soldados de três formas: na terra, na água e no ar, uma referência óbvia ao tripé que compõe as forças armadas. Em cada uma dessas três tramas há um protagonista definido, embora eles não tenham tanta importância quanto o conjunto dos soldados, o que é interessante considerando que na guerra os combatentes não são tratados em sua individualidade.
Logo nos primeiros minutos, espanta a falta de realismo das cenas de combate em terra, principalmente pela ausência de sangue nos corpos bombardeados. O último filme de guerra que assisti havia sido "Até o Último Homem" (2016), de Mel Gibson, que chamou atenção pela sua sanguinolência descarada, o que me surpreendeu ainda mais ao ver a limpeza dos cadáveres do filme de Nolan. Ironicamente, o diretor não poupa esforços para criar cenas impactantes quando se tratam das muitas expectativas de afogamento que o filme possui, um recurso bem mesquinho de provocar suspense nos espectadores. O argumento de que a história se passa na água e envolve navios naufragados não é o suficiente para justificar a falta de elegância na representação das cenas de afogamento, principalmente quando o personagem não morre afogado, o que desmascara ainda mais o recurso sensacionalista do diretor.
O filme melhora à medida que a trama é complementada com a saga dos aviadores, um deles interpretado pelo excelente Tom Hardy. Impressionam muito as cenas de combate no ar, de um realismo incomum no cinema, e que ganham ainda mais qualidade com o advento de novas tecnologias que quase não nos permitem diferenciar o que é real do que é computação gráfica. A história da tripulação de um pequeno barco que sai da costa inglesa com o objetivo de resgatar alguns soldados também é atraente, até porque tem bastante relação com o que está acontecendo no ar, em uma estrutura narrativa que lembra bastante os jogos de vídeo games em que os jogadores comandam mais de um personagem ao mesmo tempo, todos co-protagonistas da mesma história. A trama dos soldados na costa, que entram e saem de barcos afundados, é talvez a mais repetitiva e cansativa, embora tenho alguns bons momentos.
A grande falha de "Dunkirk" é que, a despeito de sua qualidade técnica e da relativa inventividade da estrutura do roteiro, o filme não acrescenta nada de significativo às obras do gênero. Filmes que retratam a guerra, seja qual for o conflito, deveriam obrigatoriamente apresentar uma visão crítica sobre a morte de tantos inocentes. "Glória Feita de Sangue" (1957) e "Nascido Para Matar" (1987), ambos de Stanley Kubrick, fizeram isso. Quando um filme com a temática da guerra não se politiza, corre o risco de soar patriótico, propagandista, e é isso o que faz a obra de Christopher Nolan, principalmente por sua narração final, ao som de uma canção cívica. Os minutos finais de "Dunkirk" representam não apenas o declínio na qualidade dos textos escritos por um dos grandes roteiristas do cinema contemporâneo, mas também o seu fracasso moral e ético, por ter perdido uma grande oportunidade de usar o cinema para lutar contra as injustiças que uma guerra pode causar.



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