Frenesi
"Frenesi", de 1972, é o penúltimo filme de todos já dirigidos por Alfred Hitchcock. Por ter sido filmada na década de 1970, a obra usufrui de uma liberdade de expressão muito maior do que os filmes do início da carreira do diretor, que precisou inventar artifícios para driblar a censura em seus primeiros trabalhos, principalmente dos anos 40. "Frenesi" também guarda a particularidade de ser um breve e último retorno de Hitchcock à Inglaterra, seu país de origem, depois de uma longa e bem sucedida carreira nos Estados Unidos.
A trama do filme foi adaptada de um livro britânico de 1966, guardando muitas similaridades com o texto original. Trata-se, basicamente, da história de um serial killer que consome os seus crimes utilizando uma gravata. Por preferir mulheres e agir no centro de Londres, o frenesi criado pela ação do assassino é semelhante ao caso de "Jack, o Estripador", como ficou conhecido um dos maiores criminosos da história inglesa do século XIX. É curioso que em "Frenesi", a trama não se concentra na descoberta do assassino, que já sabemos quem é desde o início, mas sim na acusação injusta que recai sobre o protagonista, Richard Blaney.
A figura do "homem errado", inclusive, é frequente nas obras de Hitchcock. Este homem é sempre alguém perseguido por um crime que supostamente não cometeu, mas que por uma infelicidade está conectado ao crime de diversas formas. A injustiça cria uma empatia grande entre personagem e espectador, dando liga ao filme e tornando-o cada vez mais emocionante, à medida que o protagonista se complica a cada cena. O vilão em "Frenesi", por outro lado, ganha logo nossa antipatia não apenas pelos crimes que comete, mas pela maneira cínica como age em relação aos assassinatos atribuídos a seu suposto amigo.
"Frenesi" tem uma cena de estupro filmada de forma muito realista, inclusive com nudez, o que creio ter sido algo único e inédito na carreira do diretor. Curioso que o assassino demonstra mais prazer em executar suas vítimas do que quando transa com elas, o que é revelado pelos closes do rosto do serial killer, esgotado pelo esforço físico. Em uma das cenas em que o assassino precisa remexer no corpo de uma de suas vítimas, as partes do corpo da jovem morta insistem em sair do saco onde estão guardadas, como se estivessem ainda vivas, lutando contra o seu agressor. Este excesso de realidade, filmado de forma tétrica e até sádica por Hitchcock, revela o que poderia ter sido a filmografia do diretor caso ele tivesse filmado em épocas de maior liberdade de expressão. Até porque, o sexo sempre foi uma constante em sua obra, mesmo que apenas sugerido.
A direção de Hitchcock, a maneira como posiciona a câmera e a utilização da trilha sonora são as cerejas desse bolo bem enfeitado que é "Frenesi", filmado em cores em Covent Garden, bairro célebre de Londres cujo maior atrativo era um grande mercado aberto de flores e frutas, que ainda existia em 1972. Impressiona na cena final a forma como o diretor opta por filmar o rosto do protagonista, depois sua mão, além dos objetos que compõem o cenário. Tudo em "Frenesi" está conectado à maneira como foi filmado, em que se pese também as belas atuações de seus protagonistas. É incrível que um diretor de cinema tenha mantido um padrão de qualidade tão alto mesmo no fim da carreira, pensando de forma tão moderna mesmo nascido no mesmo século de "Jack, o Estripador". Junto com "Trama Macabra", de 1976, este filme forma uma boa dupla de despedida do diretor, que se não foi o maior, foi um dos maiores de todos os tempos.



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