O Resgate do Soldado Ryan
Inspirado por "Dunkirk" (2017), decidi revisitar o clássico filme que deu o segundo Oscar de melhor direção a Steven Spielberg, que já tinha vencido um prêmio da academia em 1994 por "A Lista de Schindler". Assisti "O Resgate do Soldado Ryan" (1998) na época em que foi lançado e fiquei muito impactado pela história, principalmente por ter sido o primeiro filme de guerra que tinha visto. É muito provavelmente o grande filme do gênero da década de 1990, e também tem o seu lugar como uma das produções mais impressionantes do final do século passado, ao lado de "Titanic" (1997) e "Matrix" (1999). Antes dessa obra de Spielberg, poucos filmes haviam relatado a Segunda Guerra Mundial de forma tão pretensiosa, em caráter épico, de modo que o filme criou um certo padrão de qualidade para filmes posteriores.
A história de "O Resgate do Soldado Ryan" (1998) é na realidade bem inverossímil. Apesar disso, somos fisgados logo nos primeiros momentos do filme ao acompanharmos o desembarque dos soldados aliados na praia de Omaha, na costa francesa. Trata-se de uma das batalhas mais impressionantes da Segunda Guerra Mundial, que foi muito retratada na cultura popular, seja em jogos de vídeo-games ou no cinema. Na televisão, uma das representações mais famosas e detalhadas desse conflito, chamado de "Dia D", está na minissérie "Band of Brothers" (2001), que foi produzida pelo próprio Spielberg, em parceria com Tom Hanks, que é também o protagonista de "O Resgate do Soldado Ryan". Voltando ao filme, a chegada dos soldados no litoral francês é muito realista e bem filmada, um momento inesquecível para o espectador. Segundo li, os efeitos sonoros foram produzidos utilizando os disparos de armas reais da década de 1940 em estúdio, algo incrível se ouvido em alto volume.
Após a chegada na França, o Capitão John (Tom Hanks) recebe uma missão: resgatar o soldado Ryan (Matt Damon), acompanhado de um grupo de cerca de 10 soldados. A razão do resgate é que o jovem Ryan perdeu todos os seus três irmãos no conflito e o alto comando norte-americano sentiu-se sensibilizado pela mãe do soldado, decidindo devolver o garoto ao lar. É justamente neste ponto que está a pouca probabilidade de que uma história como essa ocorresse em uma guerra real, mas o cinema é tanto melhor de acordo com a originalidade de seus roteiros, e esse não é um pecado relevante no filme de Spielberg. Todo o elenco é um pouco fraco, inclusive Tom Hanks, que já tinha desfrutado dos melhores momentos de sua carreira no início da década de 1990, quando venceu dois prêmios do Oscar em sequência. Há uma tentativa pouco natural de criar um sentimento de amizade e identificação entre os soldados liderados pelo Capitão John, inclusive através do uso do humor. A equipe de John demonstra um grande descontentamento com a missão que recebe, por acreditarem que não valia a pena arriscar tantas vidas para salvar apenas uma. Neste sentido, Ryan ganha a antipatia deles, mas estabelece uma empatia maior com os espectadores, principalmente na cena em que conta ao seu capitão uma história pré-guerra, em um bem sucedido improviso de Matt Damon.
O filme tem um objetivo claro de soar patriota, inclusive citando Abraham Lincoln, um dos pais fundadores dos EUA. Há, no entanto, uma preocupação humanista do diretor em representar os soldados e suas fraquezas, como na tocante cena em que um dos membros da equipe de resgate acaba falecendo nos braços dos amigos, após grande sangramento. Ele chama por sua mãe no momento da morte e é importante destacar que boa parte dos combatentes na Segunda Guerra Mundial tinham cerca de 20 anos. Não há nenhuma preocupação em relatar o lado oposto do conflito, também formado por seres humanos, jovens, com sonhos e medos. Aliás, o soldado inimigo é retratado, mas como um prisioneiro de guerra, que clama por sua vida. É irônico que Ryan tenha sido resgatado por ter perdido os irmãos, mas ele próprio mata uma boa quantidade de alemães durante os combates. Com certeza os soldados do Eixo também tinham família. "O Resgate do Soldado Ryan" é um filme importante no gênero "guerra" e possui grandes qualidades técnicas que impressionam o espectador. Além disso, possui também uma história envolvente, prazerosa até o ponto em que a dor de seus protagonistas também se transforma nas nossas angústias. Sua mensagem política é clara (e conservadora) e o tom sentimental impera nos momentos finais, mas ainda assim é um espetáculo visual indispensável para quem gosta de cinema.



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