Entrevista com o Vampiro
Uma das minhas primeiras lembranças cinematográficas é "Entrevista com o Vampiro", de 1994. Era um filme frequente nas sessões noturnas do SBT e, por ser uma criança que dormia tarde, assisti muitas vezes a história dos vampiros Louis e Lestat até chegar o sono. Não é um filme clássico sobre vampiros, muito menos uma obra-prima do gênero, mas certamente teve o seu lugar na década de 90, sobretudo pelo elenco de peso e pela produção no mínimo pretensiosa.
A história original do filme é na realidade um romance homônimo, escrito em 1976 por Anne Rice. No Brasil, o texto foi traduzido por ninguém menos que Clarice Lispector. A história original ganhou duas continuidades na literatura na década de 80, que também foram adaptadas para o cinema em um único filme: "A Rainha dos Condenados". O filme de 1994 se resume aos acontecimentos do primeiro livro de Anne Rice, que por sinal aprovou e muito a produção, considerando-a uma obra prima.
O filme conta a história de Louis (Brad Pitt), um vampiro que por acaso encontra um repórter nos becos escuros de São Francisco. Por algum motivo, os dois acabam indo para o apartamento de Louis, onde ele revela ser um vampiro e inicia o relato de sua história, desde o seu nascimento como um imortal. A partir daí a história passa a ser narrada por Louis, com algumas breves interrupções do repórter, incrédulo com os relatos de seu entrevistado. Tem grande destaque na história o agente responsável pela transformação de Louis, o cruel vampiro Lestat (Tom Cruise), que inclusive é um belo nome para colocar em um gato de estimação.
Os maiores clichês do gênero "vampiro" são um pouco desconstruídos no filme, embora alguns outros sejam mantidos, como a intolerância à luz solar e a necessidade mal explicada de dormir em caixões. Basicamente, o filme trata da dificuldade de Louis em aceitar a sua imortalidade e o preço de mantê-la, que é a busca incessante por sangue humano. Outro tema interessante é acrescentado à trama quando Claudia (Kirsten Dunst em sua primeira aparição em um longa), uma criança, é transformada em vampira por Lestat e precisa conviver não apenas com a sua imortalidade, mas também com o fato de que será para sempre uma garota de 12 anos.
O filme, que se passa boa parte nos Estados Unidos, ganha algumas cenas em Paris, quando surge na trama Armand (Antonio Banderas). Ele é o vampiro mais antigo do mundo, até onde se sabe, e tem grande influência sobre o caráter de Louis. É interessante que Armand comanda um teatro em Paris, cujos atores são vampiros fingindo ser humanos interpretando vampiros. Em um dos espetáculos, uma mulher é sacrificada de verdade, enquanto a plateia julga estar apenas diante de uma peça muito realista. As passagens na Europa são um pouco confusas, até porque não fica muito claro para o espectador qual a razão da perseguição de Claudia, por exemplo. Uma curiosidade: Armand e Lestat, dois grandes vampiros da história, nem chegam a contracenar entre si.
"Entrevista com o Vampiro" envelheceu mal, embora tenha tido o seu protagonismo na década de 1990, ainda mais que tocou em um assunto pouco tratado na época, que é uma suposta relação homossexual entre Louis e Lestat. É uma história com poucos desdobramentos, superficial. Há alguns bons momentos, sobretudo com um elenco tão estrelado, mas de modo geral o filme deixa a desejar. Eu não o colocaria em uma lista dos melhores filmes de vampiros de todos os tempos, mas há que se considerar o esforço por dar nova vida a um tema que já era muito batido no cinema àquela altura, quando já havia sido lançado "Drácula de Bram Stoker", dirigido por Coppola, este sim um dos filmes definitivos do gênero. O tema "vampirismo", no entanto, continuou a se reinventar nos anos seguintes. Na mesma década surgiu "Buffy", que ficou no ar durante um bom tempo, além de "Blade", outro sucesso. Apesar dos pesares, "Entrevista com o Vampiro" deve ter sido um sopro de vida pro seu gênero, que atualmente respira por ajuda de aparelhos, depois do meteórico sucesso da saga "Crepúsculo", que rapidamente condenou os vampiros novamente ao ostracismo no cinema.



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