Mãe!
"Mãe!", filme de 2017, foi dirigido e escrito por Darren Aronofsky, diretor consagrado e de estilo bem característico, autor de "Réquiem para um Sonho" (2000) e "Cisne Negro" (2010), dentre outras produções importantes. O filme causou um grande burburinho na época de seu lançamento, não só pelo elenco super estrelado, com Javier Bardem, Jennifer Lawrence e Michelle Pfeiffer, mas também por ter sido considerado por boa parte do público como um filme ruim, embora tratado com certa complacência pela crítica especializada. A produção da obra deve ter feito um belo trabalho de marketing para que um filme de compreensão sinuosa tenha sido tão falado antes do lançamento e estreado em cinemas de todo o país, inclusive em Juiz de Fora. Vai entender...
Os primeiros minutos do filme sugerem que a história de terror vai seguir uma premissa semelhante à de "O Bebê de Rosemary", de Polanski. Isto porque existe uma sugestão de que a protagonista está grávida, por causa de suas tonturas, e a visita de um idoso e sua mulher à mansão onde ela vive com o marido escritor reforça ainda mais que algo macabro pode acontecer. Pra falar a verdade, os primeiros sessenta minutos de filme são muito angustiantes, porque ficamos o tempo todo preocupados com a integridade do casal anfitrião, que recebe outro casal bem esquisito em sua bela casa bucólica. Há várias coisas estranhas acontecendo e, considerando que "Mãe!" é um filme de terror, não dá pra negar que realmente assusta e choca. A relação da protagonista com a casa é um tanto quanto sobrenatural, e há uma série de elementos que nos fazem supor que o seu marido é cúmplice do casal de visitantes, o que contribui com o clima de tensão do filme, em constante expectativa de que haverá uma grande revelação ao espectador. Não há.
Um dos pontos mais interessantes de todo o filme é que a personagem de Jennifer Lawrence é invadida a todo momento. Ela tem um comportamento paranoico, desconfiado e isso só piora à medida que o casal de visitantes que ela recebe em sua casa não hesita em ser o mais espaçoso possível. A personagem de Michelle Pfeiffer, inclusive, faz perguntas constrangedoras, é invasiva, misteriosa. Ela é, enfim, o tipo de pessoa que ninguém gostaria de receber na própria casa. Em determinado momento do filme, há uma espécie de velório sem corpo na mansão. Este é o ponto alto da história, quando não param de chegar visitas para prestar suas últimas homenagens ao morto. Acontece que, em pouco tempo, os convidados ficam muito à vontade, começam a explorar a casa e até danificá-la, para o desespero da anfitriã. O auge dessa cena está no momento que percebemos que o velório tornou-se na realidade uma festa e que ninguém mais se importa com o morto.
Existe um momento chave em que a história migra do terror psicológico para a total alegoria. E aí fica a dúvida se Darren Aronofsky se perdeu no roteiro ou se sabia o que estava fazendo. A crítica o defendeu e, de fato, o filme é uma grande metáfora. A personagem de Jennifer Lawrence, a "Mãe", é a natureza. O seu marido é "Deus", o escritor e criador. O casal de visitas "Adão e Eva", os filhos deles "Caim e Abel". A invasão e destruição da casa representa o total descaso dos habitantes da terra com o planeta em que vivem. Tudo isso realmente faz sentido, mas a forma como o roteiro se desvela próximo ao fim do filme é caótica e surpreendentemente cansativa. Na realidade, as escolhas de Aronofsky para concluir a história foram um ato de muita coragem, quando um simples jantar entre um casal transforma-se em um conflito semelhante à segunda guerra mundial, tudo isso dentro de uma casa.
"Mãe!" pode ter sido tão mal recebido porque na realidade enganou o público. Travestido de filme de terror em sua primeira hora de duração, o longa revela-se mais tarde uma grande alegoria para o surgimento da humanidade e a sua relação promíscua com o planeta Terra e a natureza. Aos olhos de quem esperava um filme de horror, a obra é um verdadeiro fracasso. Para quem optou por continuar tentando entender a mente de Aronofsky, trata-se de um espetáculo surreal, uma completa experiência de sonho, um pesadelo, como os filmes de David Lynch ou Lars von Trier. É preciso ter paciência e estômago para considerar que "Mãe!" tem algo importante a dizer. Mas não dá pra negar que o filme nos incomoda do início ao fim, o que já é um grande trunfo se o consideramos não como entretenimento, mas como uma provocação ao espectador.



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