Rocky


Ambientado em uma Filadélfia fria e escura, "Rocky" conta a história de um boxeador cuja carreira não foi para a frente. Por dinheiro, o clássico personagem de Sylvester Stallone encara lutas em pequenos ginásios e trabalha como cobrador de um agiota local, um trabalho sujo que ele, apesar do jeito truculento, desempenha com mal gosto e com a humanidade dispensável para o ofício. A vida de Rocky muda quando ele, por pura sorte, é convidado a enfrentar Apollo Creed, o atual campeão mundial de boxe, em uma luta comemorativa do bicentenário da independência dos Estados Unidos.

A história é pouco crível e esta dose de fantasia é o que dá ao filme o caráter de uma fábula moderna, cujo protagonista é um improvável lutador inexpressivo e falastrão, que se apaixona pela tímida atendente de um pet-shop. O herói é na realidade um anti-herói, morador da periferia, que habita um apartamento inóspito e não tem nenhuma disciplina para o esporte que ele, paradoxalmente, ama. Seu melhor amigo está viciado em bebidas alcoólicas e insatisfeito com o emprego, em um frigorífico tão gelado quanto as ruas da Filadélfia. Tudo na vida de Rocky sugere que ele é um "loser", um perdedor que tem consciência da sua deplorável condição de vida, depositando toda a sua esperança não no boxe nem na luta com Apollo, mas sim no amor que sente por Adrian, que aos poucos revela estar apaixonada por ele também.

A rotina de treinos de Rocky para a luta mais importante de sua carreira é irregular e ele tem seus próprios métodos extravagantes de treinamento, como socar as carnes do frigorífico onde o amigo trabalha. Apollo, por outro lado, tem todo o dinheiro e recursos ao seu lado. O campeão mundial é um especialista do show business, preocupado com o glamour e o dinheiro, consciente que a luta contra um pequeno boxeador atrai os olhares da nação por conta da possibilidade de ascensão social de Rocky, algo que os norte-americanos tanto valorizam, moradores da "terra da oportunidade". Trata-se de um embate entre Davi e Golias, um verdadeiro espetáculo midiático que renderá milhões de dólares às custas da ilusão de um desconhecido lutador da Filadélfia.

A fotografia saturada e as locações reais do filme dão a ele um aspecto de realidade que poucos filmes conquistaram, sobretudo pela crueza com as que as cenas são representadas, seja através de metáforas como a carne que sangra no frigorífico ou pela bela atuação de Sylvester Stallone, que assim como o seu personagem, contrariando todas as expectativas, foi até mesmo indicado ao Oscar de melhor ator em 1977. "Rocky" não é somente um grande filme, mas também um marco na memória das produções da década de 70, principalmente pela sequência em que o boxeador protagonista corre com o seu conjunto de moletom cinza e all star de cano alto, em um clímax em que ele sobe os degraus do Museu de Arte da Filadélfia para lá em cima simular a comemoração da vitória que ele, no fundo, acreditava que poderia acontecer. Tudo isto ao som de "Gonna Fly Now", imortalizada como uma canção que representa a persistência de atletas no mundo todo.

Em 1977, "Rocky" venceu o Oscar de melhor filme e melhor direção, prêmios inesperados para um filme com a temática esportiva. Curioso que "Taxi Driver" também era um dos competidores naquele ano e é possível enxergar algumas semelhanças entre os dois filmes, apesar da estética bem diferente entre os seus realizadores. Não há como dissociar o filme da figura de Stallone, não somente por ter sido o protagonista, mas também por ter escrito o roteiro original. O personagem "Rocky" é cativante e naturalmente somos impelidos a torcer pelo seu sucesso ao longo da história. O filme, no entanto, está longe de ter como proposta principal a expectativa da vitória ou derrota do protagonista. O próprio desfecho, pouco conclusivo, sugere que Rocky afinal de contas não estava lutando contra Apollo Creed, mas sim pela sua própria honra, tão desgastada para si mesmo. 

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