Viva - A Vida é Uma Festa
Este é um filme que, antes de mais nada, celebra a cultura mexicana. E isso tem um significado político muito forte, considerando que é uma animação estadunidense, de um país governado por um presidente que tem adotado abertamente medidas restritivas em relação aos seus vizinhos latinos. E é ainda mais significativo que "Viva" tenha vencido o Globo de Ouro de melhor animação e seja o favorito dos indicados ao Oscar nesta categoria. O México está sendo levado em conta pelo cinema dos EUA, que por sinal depende muito do talento dos realizadores de lá. Afinal, o que seria do cinema norte-americano se não fosse por diretores como Iñárritú e Del Toro, por exemplo?
A Pixar, subsidiária da Disney, decidiu então escalar o seu mais alto time de profissionais para executar aquela que é, em minha modesta opinião, a mais bela de todas as animações já feitas, considerando apenas os termos visuais, gráficos. Nunca a tecnologia foi capaz de produzir um desenho computadorizado tão perfeito, com tantos detalhes. Quanto ao roteiro, o filme chama atenção pela originalidade da história e pela narrativa sentimental (que está fazendo muita gente chorar no cinema), mas não se destaca muito além dos melhores trabalhos dos estúdios Pixar, por razões menos relacionadas ao próprio filme do que ao gigante nível de excelência das animações anteriores, principalmente a franquia "Toy Story", o que torna desafiador para qualquer filme ser melhor do que o passado iluminado da Disney.
"Viva" conta a história de uma jovem criança, chamada Miguel. Ele é apaixonado por música, mas há um grande problema em sua família envolvendo um tataravô que abandonou a mulher e filha pequena para dedicar-se à carreira de cantor e violonista. Só que o músico nunca mais voltou, criando uma grande cicatriz que ultrapassou gerações. Os seus descendentes, ressentidos, aboliram por completo a música de suas vidas, dedicando-se com afinco ao negócio da produção de sapatos. Quando Miguel revela para os parentes que quer ser músico como o tataravô, é logo proibido por todos, chegando ao ponto de ter que roubar um violão de um famoso artista local falecido, episódio que acaba o transportando para os mundos dos mortos, onde tem a oportunidade de conhecer o seu tataravô.
Há uma ligação muito forte entre o "dia dos mortos" mexicano, que assim como no Brasil é celebrado todo dia 2 de novembro, e a história de Miguel. Isto porque a criança está tentando encontrar um antepassado que admira e que pode lhe dar a benção que precisa para ser músico, o que sua família não lhe concedeu. E aí temos a oportunidade de conhecer muito da cultura dos mexicanos no que diz respeito ao dia dos finados, porque os rituais são muito interessantes, sobretudo os altares onde os vivos ofertam comidas e exibem as fotos dos falecidos, aguardando sua visita. Há também uma representação interessante do "céu", retratado como uma morada cheia de caveiras simpáticas e coloridas, que passam por uma estrutura semelhante a uma alfândega de aeroporto para serem autorizados a visitarem seus parentes vivos. Quanta criatividade!
Foi impossível não relacionar a história de certos elementos da cultura popular referenciados em "Viva", como a eterna disputa entre duplas de compositores, em que um dos artistas é sempre mais esperto que o outro e faz vantagem com um trabalho que não é seu, como tantas vezes pudemos testemunhar na biografia de artistas como Lennon/McCartney ou até mesmo Roberto e Erasmo Carlos. Também me chamou atenção a figura do mito, da estátua, da construção de personagens históricos idealizados, como é Ernesto de la Cruz (que não por acaso tem um nome parecido com o do líder Chê Guevara). Existe uma cena em especial que poderia ter sido retirada da peça "Roque Santeiro", de Dias Gomes, tamanha a coincidência de temas entre os personagens "heróis" das duas histórias.
Um dos elementos que mais me marcou no filme foi, sem dúvidas, o poder transformador da música. O jovem Miguel herdou de seus antepassados todo o gosto e o talento pela arte, e não há nada que possa retirar isso dele, nem mesmo o desejo dos parentes mortos. Quando a criança canta a música final, tocando o seu violão, ficou claro para nós espectadores que durante todo o filme Miguel estava em busca não apenas de seu sonho, mas cumprindo um destino que já parecia traçado no sangue musical que corre nas veias dos membros vivos e mortos da família. Aliás, besteira dizer que corre sangue nos membros de quem já morreu, não é mesmo? "Viva" é o mais provável ganhador do Oscar de melhor animação em 2018, não tanto pela sua criatividade incontestável, mas porque mexe muito com os sentimentos de quem assiste esta fantástica obra.
Ps: "Viva" é a atualmente a maior bilheteria da história do cinema mexicano.



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