Me Chame Pelo Seu Nome


Não há nada mais simples do que o roteiro de "Me Chame Pelo Seu Nome", que é baseado em um livro escrito por André Aciman. Digo simples porque o filme é uma história de amor entre um jovem judeu de 17 anos (Elio) e um americano de 24 (Oliver). Eles se conhecem porque Oliver vai passar alguns dias na casa de veraneio dos pais de Elio, recebendo orientação do pai do garoto para sua pesquisa acadêmica. Inicialmente, há certa dúvida sobre a possibilidade de ambos serem gays, porque não sabemos nada sobre Oliver. Elio, por outro lado, guarda certo mistério em seu comportamento e ainda é um adolescente descobrindo a sua sexualidade, mas desde o princípio temos ciência do seu encanto pelo visitante. Interpretado pelo jovem e talentoso Timothée Chalamet, Elio tem uma extrema profundidade e é construído com muito cuidado ao longo da trama, protagonizando cenas muito intensas e emocionantes, como a sequência final, quando temos a certeza de ter presenciado o batismo de um novo grande ator de cinema.

A fotografia, feita por um tailandês que já havia trabalhado em filme premiado no Festival de Cannes, é a cereja do bolo desse belo filme gravado em uma pequena cidade do interior da Itália e falado parte em italiano, parte em inglês e francês. A trilha sonora também tem um papel essencial na trama, principalmente por ser quase toda tocada em um piano excessivamente alto, instrumento que o jovem Elio domina e toca com uma quase orgiástica emoção dentro de casa, embora seja mais contido do lado de fora ao lado e à vista dos pais. Quem puder, ouça a canção "Futile Devices", de Sufjan Stevens, uma música especial no filme e muito bem escolhida, assim como "Mistery of Love", indicada ao Oscar - canções recentes, mas saudosistas. O filme se passa no início da década de 1980 e isso contribui para o ambiente retrô que a obra assume através de elementos hoje esquecidos, como a escrita de partituras à mão e as fitas cassetes. Esta ausência da tecnologia no filme, ou o uso de uma tecnologia ultrapassada, reforça o isolamento forçado da família em sua casa de campo, no período das férias de verão.

Quando Elio e Oliver finalmente realizam o amor que sentem um pelo outro, o que não poupará o espectador de muitas cenas de sexo (pouco explícitas, mas sugestivas), tudo o que o filme oferece é a luta individual do jovem Elio no conhecimento e aceitação da sua orientação sexual, que até então era desconhecida ou auto-reprimida. É importante que um tema como esse venha à tona em um filme com tanta expressão, com várias indicações ao Oscar, para quem sabe reforçarmos a esperança de que as pessoas sejam mais humanas em relação aos homossexuais. Neste sentido, o filme passa uma mensagem importante, principalmente na emocionante cena em que o garoto conversa com o seu pai sobre a sua relação com Oliver. As repetitivas cenas de amor entre os protagonistas pode parecer redundância do roteiro, mas me soou como uma tentativa de reforço do que deve ser natural aos espectadores, como sempre foram as cenas semelhantes envolvendo casais heterossexuais.

E no que diz respeito à essa naturalização do beijo, do carinho e do sexo gay, a direção de "Me Chame Pelo Seu Nome" vai do concreto ao abstrato, uma vez que, mesmo já tendo exposto com certo detalhes o sexo entre os protagonistas minutos antes, brinca logo depois com um pêssego para metaforizar o sexo anal que o jovem Elio recém descobriu. É um momento corajoso, erótico e ainda assim brincalhão, que com certeza vai render muitas referências na cultura popular, principalmente entre os gays. O resultado dessa direção provocativa é um filme sobre a descoberta da homossexualidade, da aceitação paterna e, principalmente, da realização do amor. Não me parece que será o vencedor do Oscar, mas das indicações que recebeu merece o prêmio de "roteiro adaptado", "canção original" e inclusive "melhor ator", embora saibamos que o jovem Timothée Chalamet ainda vai ter muitas outras oportunidades.

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