Sem Amor


Conheci o trabalho do diretor russo Andrey Zvyagintsev quando assisti "Leviatã", indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015, que comentei aqui no blog. Este ano o diretor emplacou novamente a indicação na mesma categoria, desta vez com "Sem Amor", um filme menos político, mas ainda assim muito impactante. As tomadas iniciais já nos sugerem qual o tipo de atmosfera vamos encontrar durante a duas horas de projeção: uma Rússia fria, inóspita, enorme e melancólica. É neste país que uma criança de cerca de 12 anos desaparece da vista dos pais, que estão passando por um divórcio extremamente complicado. A criança é tratada com desprezo pelo pai e pela mãe, esta última retratada como uma figura imbecilizada pelo seu smart-phone e a própria vaidade (em uma interpretação marcante da atriz russa, que eu desconhecia). 

Se em "Leviatã" o foco estava na relação entre o poderoso governo russo e o minúsculo cidadão ameaçado pela burocracia, em "Sem Amor" o diretor explora a ausência de amor e humanidade entre pai, mãe e um filho nascido de forma indesejada em um casamento que nem deveria ter acontecido. Quando a criança desaparece da vista de seus pais, a sua ausência demora a ser notada. Duas cenas de sexo se desenrolam para que a falta da pequena criatura seja sentida e as autoridades acionadas. A polícia aqui é retratada como um poder insensível e ineficiente, de modo que a ajuda para encontrar o menino surge através de um grupo de voluntários. A busca incessante poderia aproximar os pais divorciados, mas o efeito é justamente o contrário: a relação entre os dois protagonistas adquire um ponto insustentável. 

Para complementar o drama pessoal dos pais do menino sumido, ainda existe o ambiente deprimente do outono/inverno russo, somado à depressão que assola boa parte de sua população, quase sempre associada ao alcoolismo. Fora das fronteiras russas, interfere no comportamento dos personagens a assombrosa intervenção militar do governo de Putin na Ucrânia, o que não passou batido neste filme angustiante, porém necessário. É um bom candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro, até porque Andrey Zvyagintsev não ganhou o prêmio quando mereceu e muito com o seu trabalho em "Leviatã". Recomendo.

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