Cidade de Deus

"Cidade de Deus", de 2002, é um dos filmes mais importantes da história do cinema brasileiro. O longa foi dirigido por Fernando Meirelles, um cineasta paulistano cuja carreira é bastante internacionalizada, tendo alcançado bastante sucesso com o filme "O Jardineiro Fiel", de 2005 e a adaptação do romance de Saramago para as telonas: "Ensaio Sobre a Cegueira", de 2008. Podemos dizer que "Cidade de Deus" foi o filme que lançou Meirelles ao mundo, mesmo que depois dessa trinca de filmes bem sucedidos o diretor não tenha emplacado nada muito relevante, ficando bastante apagado desde então. O roteiro de "Cidade de Deus" foi escrito por Bráulio Mantovani, outro cineasta paulistano cuja carreira envolve a escrita de filmes importantes pro cinema brasileiro, dentre eles os dois volumes de "Tropa de Elite" (2007 e 2010), feitos em parceria com José Padilha. 

Fiz estas devidas apresentações porque um dos maiores destaques de "Cidade de Deus" é certamente a sua estrutura narrativa e a maneira como foi filmado, não é atoa que o filme recebeu quatro indicações ao Oscar de 2003 (um recorde no cinema brasileiro) justamente nestas categorias técnicas, muito embora não tenha levado nenhum prêmio. É também digno de nota o trabalho de formação do elenco do filme, que selecionou atores e atrizes quase sempre estreantes, treinados em um workshop exclusivo para a gravação do longa. Isto inclusive foi tema de um documentário disponível na Netflix, chamado "Cidade de Deus - 10 Anos Depois", que mostra como alguns dos atores do filme ficaram desemparados após as gravações. O elenco principal tem somente um ator que já possuía uma carreira mais sólida em 2002, que é Matheus Nachtergaele. Alice Braga e Seu Jorge começaram as suas carreiras no cinema em "Cidade de Deus", sendo que hoje Alice é uma das mais respeitadas atrizes brasileiras no cinema internacional. Seu Jorge tem uma passagem mais discreta no cinema, mas parece que causou uma boa impressão como o protagonista de "Marighella", o filme de Wagner Moura que ainda não estreou no Brasil.

É comum que "Cidade de Deus" seja considerado um filme influenciado por Tarantino, não apenas pela temática violenta e por seu realismo ambíguo, mas também pelo pouco apego do roteiro à linearidade dos fatos narrados. O filme brasileiro, assim como "Pulp Fiction" (1994), por exemplo, começa do fim para nos apresentar uma história que salta de um ponto ao outro da sua cadeia de episódios, com digressões e muitos parênteses. Penso que este tipo de escolha para o roteiro não é uma criação de Tarantino, mas certamente foi popularizada por ele, de modo que faz sentido comparar os dois longas em termos narrativos e estéticos. A escrita de Quentin Tarantino, no entanto, é atualmente muito mais refinada e costurada, o que sinceramente é um dos pontos fracos de "Cidade de Deus". O longa brasileiro, embora cativante, peca por ancorar trechos da história principal em eventos muito pouco verossímeis, mesmo que o longa insista em nos apresentar a história como inspirada em fatos reais. Isto não é uma constante do filme, mas uma característica dos seus últimos atos, quando o personagem Mané Galinha torna-se uma peça chave do roteiro.

"Cidade de Deus" deve ter sido o primeiro filme brasileiro de sucesso a retratar a realidade de uma favela carioca. É claro que não podemos nos esquecer de "Orfeu Negro", de 1959, que inclusive já foi comentado aqui no blog, mas que representa um conceito de favela muito diferente de "Cidade de Deus". No filme de Orfeu a favela é uma abstração do cenário original de uma história grega, com aspectos muito ligados ao romance entre os protagonistas, dramatizado pelas cores e sons do carnaval pensado e poetizado por Vinicius de Moraes. "Cidade de Deus" é o retrato de duas fases diferentes da vida de um morador de favela: do princípio da criminalidade ainda dissociada das drogas na década de 1960 até a rápida escalada do crime organizado liderado pelos primeiros traficantes cariocas, notabilizados pelo completo desprezo à vida humana. Dadinho, o antagonista do filme, deixa de ser uma criança de comportamento psicopata para tornar-se Zé Pequeno, um criminoso profissional dominado pelo rancor e pela ambição, cujo lucro e o dinheiro são secundários frente a sua vontade de ser um líder temido pelos que o rodeiam.

Sempre que assisto a um filme que aborda a criminalidade, especialmente nas favelas do Rio de Janeiro, me preocupo com a mensagem transmitida e - ainda mais importante - recebida pelos espectadores. Poucos imaginaram que o comportamento anti-ético e criminoso do protagonista de "Tropa de Elite" seria celebrado por parte das plateias brasileiras, ao ponto de ter sido necessária a escrita de uma continuação como um "mea culpa" dos realizadores do filme. "Cidade de Deus" poderia pecar por outro lado, justamente o lado oposto, que é a romantização da vida criminosa, até porque existe uma tendência natural de nós espectadores a nos afeiçoarmos a alguns personagens do filme. Mas eu penso que o roteiro solucionou esta questão ao criar o personagem de Buscapé, que é um contra-peso ao horror representado por Zé Pequeno, justamente por ser um dos poucos elementos de comportamento verdadeiramente humano e honesto na história. O filme retrata Buscapé como um jovem que a despeito de ter nascido na Cidade de Deus (e portanto ter tido muitas razões pra ingressar no crime) contrariou este impulso quase que natural por razões éticas e morais desconhecidas por nós. Esta ideia é muito clara nas cenas em que ele desiste de cometer alguns assaltos na cidade, simplesmente porque é uma figura amável e dócil.

O oposto da barbárie de Zé Pequeno não é o moralismo policial, mas a ética ingênua e natural de um jovem negro cuja história de vida poderia se coincidir com a do antagonista do filme. O compromisso político de "Cidade de Deus" é muito pouco claro, até porque o filme não poderia terminar de maneira mais pessimista, mas certamente Buscapé é o "lírio do gueto" da canção de Marcelo Yuka. Só que Buscapé não foi regado pela educação pública. Ele se diferenciou dos demais colegas por uma natureza ética desconhecida, que sequer sabemos até onde o levou. "Cidade de Deus" é um filme importante, de grande qualidade técnica e estética. Do ponto de vista narrativo, o filme acrescenta pouco às possíveis reflexões sobre a criminalidade carioca, até porque o poder público (principalmente a polícia) é um mero figurante nesta tragédia sobre a vida e morte em uma favela do Rio de Janeiro, como se a criminalidade na Cidade de Deus não fosse também reflexo de uma política de drogas mal sucedida e de um Estado violência que mata inocentes dia após dia de maneira impune. É uma pena que a mensagem final do filme, ou seja, a da inevitabilidade do crime, tenha sido reforçada na prisão de um dos atores do elenco, preso antes mesmo da estreia do longa em 2002. É que não adianta regar o lírio apenas uma vez. É preciso regar todo dia uma planta pra que ela floresça. Ou como disse o personagem Cândido, de Voltaire: "Tudo isto está muito bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim".

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