Frances Ha

A primeira vez que todo mundo ouviu falar em Greta Gerwig foi em "Frances Ha", filme de 2012 dirigido e co-escrito por Noah Baumbach, responsável pelo elogiado "A Lula e a Baleia" (2005). Greta também escreveu o roteiro de "Frances Ha" e deu os seus primeiros passos como cineasta quando finalmente apresentou ao público o seu trabalho mais maduro: "Lady Bird" (2017), que lhe rendeu a indicação ao Oscar de melhor diretora (a quinta mulher indicada na história da categoria) e de roteiro original. Desde então, Greta Gerwig tem gerado muita expectativa em relação aos filmes que está por fazer, sendo hoje uma das cineastas mais importantes do cinema norte-americano, mesmo que ainda com 35 anos. Greta é filósofa formada em Columbia, dançarina e autora representante de um subgênero chamado cinema auto-biográfico.

Em "Frances Ha", Greta interpreta uma jovem de Sacramento que vive em Nova York, onde divide um apartamento com sua melhor amiga. O filme individualiza um tipo de residente nova-iorquino muito comum: o jovem entre 20 e 30 anos que deixa a sua cidade natal interiorana para estudar e viver a experiência de morar em uma metrópole onde não apenas terá mais oportunidades na carreira, mas também onde poderá experimentar tudo aquilo que as grandes cidades proporcionam: comida estrangeira, cultura cosmopolita e pessoas diferentes. Frances é professora de dança e aspira uma carreira no mundo artístico, embora fique muito claro para nós (pela interpretação de Greta e seus trejeitos) que ela possui pouco talento como dançarina. Frances é estabanada, muito alta e tagarela. Um de seus colegas de apartamento (porque ela muda de endereço algumas vezes durante a história) a classifica como "inamorável" e de fato a protagonista tem certa repulsa por relacionamentos. Logo no início da história ela rompe com seu namorado e mais tarde ela tem um chilique rápido quando um cara encosta nela depois de um encontro. 

O roteiro tem essa preocupação de mostrar que Frances acredita ser capaz de viver feliz sem um relacionamento, muito embora em alguns momentos seja possível perceber certa angústia na protagonista, um pouco carente, principalmente da atenção de sua melhor amiga Sophie. Mas a maior angústia de Frances é a distância da cidade natal, dos pais, a falta de dinheiro e a possibilidade de que ela não consiga realizar o seu maior sonho, que é se sustentar sendo dançarina. A exemplo de "Lady Bird", o filme poderia cair naquela crítica com certo fundamento de que a história toda é mero "white people problem" e o roteiro até tenta dizer para o espectador que sabe que é muito pueril, principalmente quando Frances diz ao amigo que é uma pessoa pobre, ao que ele corrige dizendo que isso seria uma injustiça com as pessoas pobres de verdade. Será que uma obra escrita por uma autora branca, dirigida por um homem branco e cujos personagens são também todos brancos não poderia alcançar uma crítica social mais profunda do que dizer que existem pessoas mais pobres que Frances? Poderia sim, mas parece que Greta Gerwig ainda não queria tratar disso quando escreveu seu primeiro filme.

Mas é possível julgar o filme e a história dentro da bolha burguesa de Manhattan, e nesse sentido o filme até se parece um pouco com algumas das melhores comédias de Woody Allen (ele próprio um nova-iorquino apaixonado), de onde inclusive deve ter sido tirada a inspiração de Noah Baumbach pela fotografia em preto e branco, uma marca do trabalho mais notório de Allen. Não deixa de ser interessante que "Lady Bird" seja na verdade uma história muito semelhante a de Frances, só que na perspectiva da jovem antes de deixar a cidade de Sacramento. Os dois filmes deveriam ser vistos em dobradinha, mas na ordem inversa em que foram lançados. "Frances Ha", mesmo que seja uma comédia, é na realidade um curto drama sobre uma jovem de 27 anos angustiada pelos caminhos absolutamente desconhecidos na vida de quem optou por deixar a confortável rotina interiorana ao lado dos pais para viver em uma grande cidade. Esta "corda bamba" vivida pela protagonista é representada nas muitas mudanças de endereço que ela sofre, pelas suas relações sociais um pouco rasas e principalmente em sua constatação final de que às vezes é preciso aceitar que podemos não caber naquilo que sonhamos pra nós ou que não faz mal nos podar um pouco se isso nos trouxer alguma paz de espírito. Esta ideia é brilhantemente representada na cena em que a protagonista, Frances Halladay, vira "Frances Ha", para que seu nome caiba na etiqueta do interfone do apartamento em que finalmente vai morar sozinha.

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