O Rei da Comédia
O Rei da Comédia, de 1981, é certamente um dos melhores filmes de Martin Scorsese. A obra combina uma narrativa atraente, profunda, bem escrita, com uma direção precisa, dinâmica, arrematada pelo talento sem igual de Robert De Niro como a figura central da trama. É uma experiência única e extremamente prazerosa assistir ao trabalho de um ator tão virtuoso e capacitado como De Niro, um artista tão cheio de recursos que assombra qualquer espectador pela sua primorosa vitalidade em cena e pelo seu poder de conferir realismo às situações grotescas e embaraçosas pelas quais o seu personagem está sempre envolvido no filme, sem se deixar levar por uma interpretação superficial e viciada em caricaturas ou em modismos e gags padrões de filmes de humor.
"O Rei da Comédia" é um thriller de perseguição - ou stalking, utilizando um jargão contemporâneo - com foco na obsessão do personagem Rupert Pupkin (Robert De Niro) pelo consagrado humorista e apresentador de talk show Jerry Langford (Jerry Lewis). Rupert é um homem adulto que vive em Nova York, morando com sua mãe, naquilo que hoje chamaríamos como a representação de um incel, obstinado em se tornar um humorista famoso. Em uma cena em que Rupert janta com uma colega, insistindo em uma amizade que ela própria rejeita, o homem mostra orgulhoso a ela um caderno recheado de assinaturas de famosos e famosas que ele coletou em Nova York, sugerindo a quantidade de vezes em que o aspirante à artista importunou aquelas pessoas pedindo fotos ou atenção. Rupert tem todos os sintomas de um homem adulto em fracasso na vida pessoal e na carreira, com poucas e mal sucedidas relações sociais, desprezado pela mãe, mas extremamente confiante em relação às suas pretensões como comediante.
A trama de "O Rei da Comédia", fiel ao gênero que referencia em seu título, apesar da acidez do humor do roteiro, pinta em Ruper Pupkin um personagem que ambiguamente nos provoca piedade e vontade de rir, embora não por desejo voluntário de Pupkin. É que o personagem de De Niro, tão confiante na qualidade de suas piadas e no seu futuro brilhante, protagoniza cenas verdadeiramente ridículas, como aquela em que presenteia sua "namorada" com o próprio autógrafo, prevendo que o documento um dia valerá milhões, ou quando fantasia em sua casa um delirante diálogo entre ele e o seu maior ídolo, o apresentador Jerry Langford, apesar dos constantes gritos de sua mãe implorando por silêncio e que ele vá trabalhar. Esta figura do artista fracassado, embora risível, ao mesmo tempo é assombrosa, tamanha a dedicação de De Niro em criar um personagem tão verossímil, ingênuo e inegavelmente carismático.
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| Jerry Lewis e Robert De Niro - improvável encontro de duas lendas do cinema. |
A ambição de Pupkin em se tornar um comediante ganha mais concretude quando ele finalmente se aproxima de Jerry Langford, em uma abordagem no limite assediosa logo na primeira cena do filme. Apesar de um primeiro contato frio e protocolar de Jerry, este primeiro encontro mais próximo entre Pupkin e seu ídolo alimentará no protagonista a esperança de que Jerry conheça o seu trabalho como humorista e o chame para participar de seu talk show. A escolha de Jerry Lewis para interpretar o personagem homônimo foi genial, não apenas porque Lewis está muito bem no papel, mas também pela perspicácia no ato de dar à Jerry Lewis justamente o oposto do papel que se esperaria para ele quando pensamos na trajetória do ator como um dos maiores humoristas pastelões da história do cinema. Em um contexto natural, Jerry Lewis faria um excelente Rupert Pupkin e Robert De Niro não deixaria a desejar como o espirituoso, porém sisudo e eventualmente arrogante, Langford. O tempo é que seria o responsável por inverter estes papéis, de alguma maneira, quando De Niro interpretou personagem semelhante à Lewis na versão de 2019 do filme Coringa, abertamente inspirada em "O Rei da Comédia". Pena que o lendário humorista não assistiu ao filme, tendo nos deixado em 2017.
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A busca de Pupkin pela atenção de Jerry ganha contornos trágicos e absurdos à medida que o personagem, aliado a uma fã também obcecada no apresentador, decidem tomar atitudes drásticas e criminosas para alcançar, cada um, os seus objetivos. O resultado é um desfecho extraordinário, com ritmo e dinâmica tão bem desenhados por Scorsese e magistralmente conduzidos por De Niro. Em uma das sequências mais bonitas e impactantes da história do cinema, assistimos, como se estivéssemos em tempo real, aos minutos de fama tão almejados por Pupkin, à sua maneira atrevida e ritualística. E o resultado, ao contrário da visceralidade e do tom catastrófico de "Coringa", é um surpreendente e prosaico registro da mediocridade e ingenuidade de um artista que apenas não queria ser, a vida inteira, um idiota.





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